quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Almoço grátis


A base da pirâmide não sabe, mas piloto e copiloto de aviões nunca recebem a mesma refeição quando em serviço. Há sempre para eles duas opções de refeição a bordo das aeronaves, o piloto escolhe uma e o copiloto a outra. A razão é óbvia: previne-se dessa forma que os dois comam juntos comida estragada e passem mal ao mesmo tempo durante o voo. Essa lei também se aplica à tripulação, por igual motivo, metade come a opção um, metade come a opção dois.


Rígidos protocolos de segurança como esse sobrevivem porque são indispensáveis. Ninguém está livre de uma falha no controle da cozinha, mesmo de uma cozinha profissional, responsável por milhares de refeições diariamente.

Quando o almoço é grátis então, a responsabilidade é ainda maior. O cara paga pela passagem de avião imaginando uma viagem pacífica, no máximo aquele friozinho na barriga, característico da aventura fora da zona de conforto. Chega a hora do almoço e ele ataca o prato sem dó nem piedade, sai de perto que o apetite é quem manda. De graça é mais apetite ainda.

Diz o patrocinado ditado: não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Carpe diem, portanto. O almoço grátis deve ser examinado à luz dessa sabedoria. Quem oferece tem que estar preparado para a lógica do camelo, o que sobrar é lucro.   

Volto ao papo sobre comando de aeronaves. Pilotos e copilotos de aviões já viram muito almoço grátis na vida. É claro que as tripulações também, sempre no interior dos Boeings superseguros. Como última salvaguarda, o que tranquiliza todos é o protocolo de segurança: piloto e copiloto jamais almoçarão juntos. São convidados indesejados nos almoços um do outro. Nessa mesa posta entre as nuvens, afeto não resolve. Afinal, pensa o despreocupado comandante: se ele come junto comigo, quem pilota o bendito avião?

Com certeza, fora o garçom. Que tem família, não é bobo nem nada, em terra firme declara que não responde pela cozinha. Na dúvida, mostra até a carteira.  
  
Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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