sábado, 22 de julho de 2017

Sem ofensa


Fraudes podem ocorrer em qualquer lugar do mundo, inclusive a 8.848 metros de altitude, no topo do Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Um belo casal de alpinistas indianos — Dinesh e Tarakeshwari Rathod — decidiu abandonar toda a discrição e repercutiu sua suposta conquista na imprensa de seu país: teriam sido o primeiro casal indiano a alcançar o cume do Everest, isso em 2016. Ficaram famosos, mas a alegria durou pouco: a fraude foi descoberta e denunciada por um outro alpinista da Índia, quando ele constatou que as fotos usadas pelo casal para comprovar a façanha eram na verdade fotos de sua própria escalada, alteradas digitalmente.

A fraude, neste caso, teve efeito contrário ao que desejava o casal. Em vez da fama alcançada por realizar um feito notável, ficaram célebres por tentar enganar e tirar proveito da boa vontade da sociedade indiana. A internet não costuma perdoar esses erros, se o leitor tem alguma dúvida experimente digitar o nome dos dois no Google. O fato está documentado com muitas fotos.

É impossível avaliar o que houve com o casal depois desse evento. Os dois não são nem mesmo alpinistas profissionais, penso no que tiveram e terão ainda de enfrentar como desconfiança junto aos colegas de trabalho, junto à família. Poderão alegar que a fraude em nome da façanha não é novidade, o que é bem verdade. Há uma preocupação das autoridades nepalesas e chinesas — na fronteira dos dois países fica o Everest — em fiscalizar quem realmente consegue atingir o topo da montanha. O desejo de fama era tão grande, diria o casal fascinado, que não suportamos enfrentar o frio extremo e intenso, a extenuante carga física e a falta angustiante de oxigênio, chegar na beira da terrível montanha já foi incrível e nós achamos que merecíamos algum reconhecimento. Daí o alarde.

O quase espanto. 

E a solução. Que este cronista tem: sugiro ao humilde pessoal do Himalaia que providencie o desenvolvimento de um game onde se possa experimentar a escalada sem os riscos inerentes à tarefa. O problema é muito claro: as pessoas querem subir a montanha, mas não querem arriscar a própria vida para isso. Hoje em dia existe game de futebol, de tênis, de basquete, de esqui, eu sugiro então um game de escalada. Fazendo uso dos últimos avanços nas técnicas de realidade virtual, a simulação teria tudo para ser um sucesso.

Que frio o quê! O sujeito põe uma sunga diante da piscina, debaixo de um sol brando, e mergulha virtualmente nos climas do Nepal e da China. Depois diz assim: escalar o Everest é fascinante, eu prefiro a face norte, mas há quem prefira a face sul, eu demorei dois dias para conseguir, você demorou quanto? Eu adorei a experiência, as fotos ficaram ótimas, sem ofensa.

Sem ofensa.
    
Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;