sexta-feira, 23 de junho de 2017

Lote um metrô



O nosso metrô usa composições em que se pode passar de um vagão ao outro sem bloqueios. Não sei o que prefere o leitor, mas eu gosto de ir no primeiro vagão e experimentar o efeito: já que é possível enxergar do primeiro ao último dos vagões, desde que se vá em linha reta, percebe-se também do mesmo jeito as curvas que o metrô faz debaixo desta cidade, uma percepção de outra forma improvável — através das janelas, diante da escuridão do subsolo a sensação geral é de um túnel intrometido.


Em uma noite premiada por uma calma no peito, calma de estaca no couro deste vampiro, lembrei daquelas passarelas móveis que existem em algumas estações do metrô, aquelas passarelas que funcionam como esteira de academia a acelerar nosso passo. Dei-me conta de que o metrô é um parente daquelas passarelas dinâmicas e resolvi caminhar do primeiro ao último vagão, em vez de me acelerando, fazendo o contrário, na prática freando.


Toda a freqüência da estação de embarque ajudou muito, não era hora em que as pessoas costumam viajar com pressa para casa, mesmo o condutor da composição conspirou comigo, assinara contrato com o honesto salário, foi gentil. Naquele horário as pessoas costumam também ir para casa, mas é que o metrô seguia vazio, os seguranças a serviço, sobrou para os cantores e instrumentistas. Os lugares para sentar exibiam um poder de humor que a ninguém espanta. Nada sobre o ar condicionado. Somos uns frágeis tolos, sofremos com o preço da porção de pães de queijo, ou com a qualidade tosca das balinhas.

Os vagões estavam iluminados demais, eu enxergava tanto dentro deles quanto fora, os olhos tentavam compensar os excessos — o que deu certa onda. Faltou um som que me valorizasse o gogó. O boné eu trazia, quem me conhece sabe, sou um trouxa de boné. Boné faz um bem à minha careca que aos cabeludos fica difícil imaginar.

Mas de volta ao metrô... nossa gente vacila, fácil ver idosos em pé nos vagões, não há quem se exalte. Dizem que nos trens sobre trilhos é igual. É pior. Lote uma rodoviária e verá. Lote uma barca, ou aquela estrada. Lote um hotel cinco estrelas. Lote um ponto de ônibus abandonado, lote a piscina ou um bom restaurante. Lote os aeroportos. Lote um churrasco com molho barbecue. Lote um metrô.

Cheguei em minha estação na boa, funcionava calma e nem fui assaltado. O pessoal conseguia ouvir até música nos fones de ouvido. Sossego maior não há.

Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com 

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