domingo, 11 de junho de 2017

Bem-estar geral


Para a geração Z (a galera nascida entre os anos 1990 e 2000), não faz sentido algum ser escravo do trabalho. Por isso, especialistas acreditam que o circunspecto mercado passará nos próximos anos por mais uma transformação: a meta será evitar gastar infinitas horas do dia ou da noite dentro de uma empresa. Essa tendência de viver será tendência também de consumo e já foi mapeada, possui até nome entre os estudiosos: ela é chamada de wellness. Seu potencial global foi estimado este ano em três trilhões de dólares, o que supera inclusive as vendas mundiais da poderosa indústria farmacêutica.

É incrível imaginar que uma nova indústria como essa, interessada especialmente em oferecer bem-estar às pessoas, possa ganhar em poderio de gigantes como a indústria de medicamentos, justamente a indústria que é interessada em garantir nossa saúde. Não é? Para o mercado ainda são duas coisas diferentes: saúde e bem-estar, uma conclusão que pode iniciar várias conversas exatas. 

Uma delas diz respeito ao mundo que nossa espécie inventa. Que mundo será capaz de gerar o tal faturamento trilionário? No mundo em questão, as pessoas vão trabalhar menos, porque será mais importante aproveitar a vida e gozar tipos incontáveis de prazer associados ao entretenimento. Estamos falando de uma sociedade sofisticada, íntima da inteligência artificial, da robótica e das realidades virtuais.

Outra conversa que podemos ter é sobre o homeworking. O mundo do trabalho caminha para o exercício das tarefas profissionais em casa. O sujeito acorda, lava o rosto, faz o desjejum e em videoconferência com seus colegas inicia suas atividades produtivas. Há quem ache bizarro, mas prosseguimos rumo à sagrada individualização faz tempo. O engraçado é que nunca deixamos de ser manada.

Papo insano? Nem tanto, pois a verdade é fácil de admitir: saúde e bem-estar já são o mesmo tópico na cabeça das pessoas. Vivemos com vontade de perdurar, o que muda é a receita. Tem quem tome comprimidos das mãos de geriatras, tem quem aposte nos exercícios com personal ao ar livre, tem quem ponha fé nas receitas da chef natureba. Entendo que apenas uma verdade é prejuízo, principalmente para a geração Z, só uma verdade não serve à diversidade. Daí que hoje eu quero aquela receita, amanhã eu tento a outra, depois eu quero mais uma. O cobertor é que continua curto.

Falo de cobertor curto porque o leitor sabe, essa história fantástica de trabalhar menos — porque o que importa é consumir de acordo com nosso bem-estar — carrega em si contradições importantes. Juro que uma galera vai ficar fora dessa utopia consagradora do engenhoso sapiens sapiens. A espécie humana não me decepciona, sei que ninguém vai querer faltar nessa farra, então haja competição, tome hora extra e terceirização, tome trabalhar e tratar de ganhar muito dinheiro, que no fim das contas é o que garantirá lugares nesse parque de diversões. Estresse. Estresse demanda necessidade de bem-estar. Ponto para a civilização, por enquanto a maquininha, passa o cartão. Amanhã a gente vê.

Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;