quinta-feira, 11 de maio de 2017

Parar o quê

— Eu não sei parar.
— Simplesmente pare.
— Não é tão simples.
— Não é fácil, mas é simples, basta parar.
— Tenho medo.
— Medo do quê?
— O que faço quando parar?
— Você dá um jeito.
— Minha vida é um tédio.
— O tédio não é invencível.
— Não sei fazer outra coisa.
— Terá que aprender.
— Aprender como?
— Não consegue?
— Desculpe a minha burrice...
— Burrice é uma coisa que dá e passa.
— Não tenho como, parar é impossível. 
— Muita gente já parou.
— Mas não eram fracos como eu.
— Eram fracos igualzinho.
— Tem que ser muito forte para parar.
— É preciso querer muito.
— Eu quero muito.
— Então você vai parar. 
— Quando?
— Cedo ou tarde você vai parar.
— Tem que ser hoje.
— Que seja hoje.
— Não, talvez amanhã.
— Amanhã então.
— Tá vendo? Não rola.
— Mas se já marcou a data...
— Amanhã, né? Mas não vai dar...
— Amanhã você vai saber.
— Amanhã está muito longe.
— Amanhã está no lugar certo, apenas espere.
— Esperar é muito difícil.
— Muito difícil é parar, até que esperar é fácil.   

Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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