sexta-feira, 14 de abril de 2017

Tesla na pole

A companhia Tesla ultrapassou a General Motors como montadora de carros mais valiosa dos EUA. Seu valor de mercado chegou a 51 bilhões de dólares por lá, o maior entre as montadoras americanas. No ranking global, a Tesla fica agora atrás somente da Toyota, da Daimler, da Volkswagen, da BMW e da Honda.

O caso em si não teria vocação alguma para vencer o noticiário econômico não fosse o fato de que a Tesla é uma montadora diferente, especializada em montar e vender carros elétricos de alto rendimento. Isso mesmo: carros elétricos. Carros elétricos valem portanto como a novidade da vez, nada de cheiro de petróleo e gasolina, o carro que queremos a partir de hoje poderia ser com certeza movido a eletricidade.

A tristeza fica por conta do mau destino do petróleo, antes o nosso querido ouro negro. Destinado a ser em breve superado pela onipresença da eletricidade em nossas vidas, o petróleo deixará de ter esse valor todo capaz de criar, segurar ou derrubar governos. Certos rincões do planeta perderão o eterno motivo de suas brigas, penso eu, imaginando aqui que dinheiro seja a única razão pela qual se briga neste mundo. Santa inocência!
  
Seria simplesmente espetacular assistir sentado ao petróleo jorrando de volta para o interior da Terra, de onde saiu um dia para impulsionar nossa espécie rumo não se sabe para onde ainda. Quem disser que sabe merece um caixote de madeira e um lugar próximo à entrada do metrô da esquina, para alardear suas fascinantes descobertas, providenciemos.

Eu brinco, mas é claro que uma influência tão poderosa quanto a da centenária indústria do petróleo não desaparecerá assim do nada do nosso convívio. Haverá um descompasso, algum tipo de estertor ou meio-termo, e o imenso e precioso fluxo de interesse e capital vai migrar, provavelmente para o setor de meias.

Meias sim, por que não? É a minha aposta. Esqueçam os motores elétricos da Tesla, caminharemos ao ar livre graças à aposentadoria do petróleo, serão muitas as comemorações, precisaremos de meias, muitas meias, para evitar o famigerado chulé nos pés do povo. Chulé ninguém quer, aposto nas meias.

A que ponto chegamos: sinto-me à vontade para comparar petróleo com chulé, uma tolice que poderia me custar um bom emprego trinta anos atrás. Todos então precisavam muito do petróleo e ainda precisam. Ou alguém em sã consciência acha que o padrão global de consumo se sustenta hoje sem petróleo? Atingimos um ponto do qual não há volta, sinto dizer. A solução está adiante, ou não. Por isso, a performance da montadora Tesla é ainda mais impressionante e importante, preocupa é o prejuízo: 5 bilhões de dólares apenas no ano passado. Seu proprietário é o ricaço sul-africano Elon Musk. Eu pergunto: quem de nós conseguiria descansar a cabeça no travesseiro à noite sabendo que é dono desse prejuízo colossal? Definitivamente, a classe dos bilionários é de uma gente que desafia as minhas boas intenções. Nasceram do ventre de uma mãe, assim como nós, morrem mais ou menos com a mesma idade, é verdade, certamente não das mesmas coisas, mas se vão, se vão. Que estranheza imaginá-los do meu canto. Melhor é tratar do meu chulé.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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