domingo, 19 de março de 2017

No sol sou de assar as coxas


Por causa de uma corrida sob sol forte contraí assaduras. Elas atacaram-me na parte interna das coxas, como sinal de que elas — minhas coxas — atingiram um perímetro proibido, em que se tocam durante meus exercícios.

Ora, ora, que notícia! Vejam como sou: não poderei mais correr sossegado em toda a cidade. Em qualquer pista onde arriscar meus passos sobre tênis de corrida lá estarão meus detratores, a gargalhar de minhas futuras assaduras como quem vê da própria janela um dinossauro ainda vivo. Eles existem, não tenham dúvida, não os dinossauros, os que riem de meras assaduras. Só de imaginar meu andar assado e enviesado, as pernas tortas na calçada, a boca contraída em um efeito de quase espasmo, esses bárbaros ególatras sorriem. Se me veem na rua tomar a direção da farmácia mais próxima certamente disparam uma foto para o celular do amigo, em segundos a comunidade descobre o meu problema. Nada mal!

Foi para isso que inventaram a internet: para rir com mais eficiência da vida dos outros, não sabiam? Até as assaduras, não escapam nem as minhas assaduras, o que devo fazer a respeito? Mudo-me para a ilha de Páscoa. Parece que junto das famosas cabeças gigantes da ilha de Páscoa a internet não pega. No caso nem seria necessário mudar-me, nesta cidade a vantagem é a mesma.

Mas deixo as minhas assaduras para lá, tratei delas, já já brinco de bom. E o meu coxão? Este terei que partir em dois... brincadeira, de volta àquela dieta encomendada anos atrás, que deu certo de cara, mas que abandonei depois. O negócio é coxão duro, nada de coxão mole, coxa no tamanho certo e sem as assaduras, que ardem para burro, só que ninguém vê. Ainda bem, por isso conto e não mostro, não é bonito.

Bonito é o mar, são as pistas de corrida ideais para o meu exercício. Bonito é o horizonte aberto, largo diante dos olhos, desfazendo os focos de estresse. Gosto muito de correr, mas prefiro as ruas, fujo das esteiras, meu cenário é esta cidade em ação, as bicicletas passando, os pedestres da mesma vibe passando, os cachorros nas coleiras, até mesmo os carros. Em minha última viagem, arrumei um tempo para também correr, passeei.

Há para mim algo de vital nos exercícios ao ar livre. Academias funcionam, é claro, prestam serviço essencial. Mas eu decido me tratar nas ruas, sou da caminhada, sou do passeio, olho para baixo e olho para cima, para a frente é que se anda, vou descobrindo o comércio novo, as lojinhas e galerias. Os camelôs que surgem. Entro nos mercados, atravesso nos sinais, cuidado com os nossos buracos. Olha a cigana, os hare-krishnas sumiram, o pessoal toca flauta, guitarra, cavaco. Pede dinheiro para UNICEF, pede dinheiro, vende amendoim e paçoca, despista os pivetes. Sacode a ordem, sacode o caos. Cada assadura que arrumo é esta a história.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubemwordpress.com

Nenhum comentário:

 
;