domingo, 5 de março de 2017

Eu também sou folião


Não sou um folião típico. Dos que vão a blocos, vão à Sapucaí, dos que decoram os sambas-enredos das escolas, os sucessos da Bahia. Não sou o folião típico, minha folia é de outra ordem, que não cabe classificar aqui, sob pena de provocar desgostos e protestos. Neste sábado de carnaval eu voltava do cinema, onde conferia a programação pré-cerimônia do Oscar, cerimônia que este ano coincidiu com o desfile das nossas escolas de samba. Que dilema para os caseiros, acompanhar a transmissão em inglês da glamorosa festa americana ou assistir à farra majestosa e organizada de nossos desfiles. Este ano então, no Oscar teve gafe, uma gafe!, pode ter sido uma escolha difícil. Mas eu no sábado voltava do cinema.

As ruas no caminho para casa estavam vazias, a escuridão ajudava a refletir sobre o filme, eu cruzava direto com os alegres beberrões indo ou voltando de algum lugar, os encontros ajudavam a lembrar que a festa estava a um passo do meu caminho, um pequeno atalho e lá iria eu, povoar os blocos com mais uma fantasia, mais um contraste, mais uma danação.
  
Só que o filme era bom e a reflexão provava ser sedutora. Eu habitava a noite de carnaval trocando impressões com a rua irreverente, temendo encontros tristes, encontros medonhos, desencontros. Acompanhava os prédios e as portarias, os sinais verdes e as calçadas.

No final da rua escura, depois do mendigo no chão estirado como quem se aproveita do sono e reavalia os sonhos, vislumbrei o casalzinho. Sentavam na mureta que delimitava o início do condomínio, respiravam e observavam o nada. Este nada talvez fosse o horizonte de uma praia pacífica onde pudessem se esconder das confusões vizinhas. Apesar da noite, minha noite estava clara, repleta de personagens familiares, aqueles fantasiados que antes vira, a inquietude era igual. Já o casalzinho era estranho. Não haviam trocado a festa por uma sessão de cinema, haviam trocado a folia de nosso carnaval pelo prazer de uma noite básica, em que se olhava simplesmente para o nada.

De mãos dadas.

Tão fácil dizer agora, é certamente ostentar cinismo debochar daquela especialização: eu faria a mesma troca, e eu testemunhei, então vou pensar assim, que foi recado irônico, os dois seriam na verdade meus líderes. Chamem uma equipe de televisão, ou o hospício, conforme a versão. Mas não, os dois humildes correriam das câmeras, não recebi vídeo pelo whatsapp. Não desejavam ser líderes de ninguém, de nenhum bloco. Era somente uma ousada fantasia: estavam de mãos dadas no carnaval.

Eu passei por eles, vi aquela avenida. O filme muito bom, o almoço fora um churrasco supergostoso, na noite anterior eu dormira como se deve. E antes a sexta, antes a quinta, quando me dei conta era carnaval.
                 
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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