sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Bela conversa na pequena fila do cinema

— E então? Qual filme?
— Que tal este? Tá quase na hora.
— Este não.
— Por que não?
— Tem aquela atriz, não gosto dela. 
— Mas ela sempre faz os filmes desse diretor.
— Pois é, desde que trabalham juntos não assisto mais a filme dele.
— Sabe que ela é muito boa, não sabe?
— E como, só que não consigo.
— Do que se trata essa rejeição?
— Que rejeição, não gosto dela, sou obrigada a gostar?
— Claro que não, mas você mesma admite que ela é boa.
— Sei lá, Freud explica. 
— Pensando bem, vocês duas até que são parecidas.
— Imagina.
— É verdade, incrível como nunca reparei antes.
— Parecida como? Quer dizer fisicamente?
— Fisicamente total, mas também a personalidade...
— Tá bom, você conhece a personalidade dela...
— Outro dia assisti a uma entrevista, é muito igual. 
— Não acho.
— Pode acreditar, vocês duas são gêmeas.
— Ela é muito bonita.
— Você também.
— A voz dela é um tesão.
— O timbre é o mesmo. 
— Tem corpão também.
— Que nem o seu, um pouco mais sarada.
— E eu não vou à academia faz tempo.
— Dizem que é super inteligente.
— Eu sou inteligente, não sou?
— Claro que é.
— Legal, vamos nessa então.
— Bacana, olha o cartaz do filme! 
— Espera um pouco, ela está loira!
— Sim, muito gata.
— Eu sou morena...
— Mas pode pintar...
— Não sei se quero ver esse filme. 
— Quê isso, por quê?
— Acabo de me lembrar da sinopse.
— O que tem a sinopse?
— Ela trai o marido besta com o professor barrigudo.
— E daí?
— Daí que estou vendo o meu professor logo ali na fila.
— Melhor outro filme então.
— Que tal Woody Allen?

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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