quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Facebook distópico


Uma celebridade deixou de seguir outra nas redes sociais e virou notícia. Parece que os namorados famosos não postam fotos juntos desde outubro. Uma assessora desmente que tenham terminado, a relação está ótima, se o status mudar, será anunciado.

A notícia não surpreende: esse tempo estranho chegou, certamente não preciso avisar ao leitor. Nem digo que foi de repente, temos caminhado por esta estrada desde o início do século, muito fácil ver a estrada, o leitor sabe que este cume alcançado nada mais é que o sonho de Zuckerberg, que o mar em que nadamos não é outro que a viagem proposta por Steve Jobs. São os gênios da raça, diz a conta bancária, oremos.

Tento moderar para não ficar cansado. Sabe Alberto Caeiro e outros que nada disseram sobre Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e demais redes sociais? Não nos ensinaram como usá-las. Temos aprendido na marra, e quanta marra temos suportado por pretender manter um canal aberto com tanta gente. Refiro-me à marra dos haters. Nunca se odiou tanto. Ou nossas redes sociais funcionam como deveriam? São uma espécie de muro onde o sujeito conectado deve expressar seus ódios insuperáveis? Fora da rede o sujeito veste a pele de um cidadão-cordeiro, toma fechada no trânsito, passam o cara para trás no trabalho, ele agradece. Bota para dentro do corpo a ira em forma de açúcar, no wi-fi de casa eis a sua hora. Somos coitados diante de sua argumentação premiada pelos pombos.

Eu trato de ir noutra direção, que inclui textos aos quais o autor dedicou mais do que apenas ferozes cinco minutos. Sei que é difícil competir contra tanta mágoa, contra tanta corrente iracunda, mas por acaso no princípio deste mundo, quando inventaram a internet, imaginei que seria diferente? Eu não imagino como cheguei até aqui.

Percebo que teclo pelos cotovelos. Minha crônica de hoje é bradar, bradar como desejo o meu pedaço do queijo. Posso ser mais um ratinho assustado no planeta, mas pelo menos estou vivo. Passo um recado para quem na boa espera salvar-se em outra vida: se o mundo é este onde nos desentendemos com estardalhaço, o além não pode ser muito melhor. Quem está lá, um dia brilhou aqui, vejam como ficou este breve picadeiro.

Talvez lá sejamos os haters daqui e tenham que nos tolerar. Só isso? Nasce, cresce, reproduz e morre, pense em uma cerveja artesanal gelada na companhia de Gandhi, Jesus Cristo ou Buda, chego lá e o que existe é um Facebook distópico povoado por figuras lendárias. Para deixar comentário inbox pego a senha.

Eu sei, esta crônica sofre do sal. Vou ali comer minha sobremesa. Enquanto isso fique à vontade, mas faça o favor de não pôr os pés no sofá. Meu humor melhora depois de um cafezinho.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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