sábado, 26 de novembro de 2016

Sorriu

Neste desalento, do qual os parvos se aproveitam e com peito aberto ousam arrancar-nos a razão, um sorriso era tudo de que eu precisava. Foi um sorriso daqueles lentamente preparados sob o sol que banha a cidade nesta véspera de verão. Foi um ostentar de dentes que nada tem a ver com aqueles das selfies nem com aqueles da publicidade ou das câmeras de tevê. Foi um sorriso que rendia homenagem aos ventos concordes da tarde, um sorriso que não prende, antes liberta. Lembro deste sorriso agora que a distância meteu entre nós umas horas, uns dias e tantas outras histórias. Um sorriso para além dessas histórias todas, conquistando um sim da memória, sem avesso, sem recomeço. Apenas aquele movimento frágil de músculos, provocado sabe-se lá por quê. Eu quase sei o porquê, por isso é que teimo, por isso que arrisco, como se tentasse forjá-lo, um sorriso que se abriu e cruzou cerca de vinte metros, abençoando meu humor de canalhices. O sorriso que imagino (não sei se lembro ou se já imagino) foi tramado por uma humanidade rabiscada no ar, feito um verso que não carece de nome. Fora o medo e a dor, fora a soberba e o ódio, o sorriso me venceu. Embora não pretendesse, somente eu penso na vitória de uma estúpida competição entre nós? Este sorriso existe e já quero lhe dar trabalho, precisa vencer, não paro de pensar nisso. Eu recebi um sorriso genuíno, esta é a questão. E não sei o que fazer com ele. Genuíno, mas não grato, um sorriso grato, ainda que lindo, seria uma forma de obrigação. Este em linhas parvas foi grátis, mas não é injeção na testa, não é ônibus errado. Ele não fracassa, ele nem mesmo queria que eu o redissesse no mundo. A boca apenas sorriu.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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