sábado, 12 de novembro de 2016

Caça e caçador discutem a relação

— Você vai me caçar aqui?
— É o que eu pretendo.
— Mas até aqui?
— Não vejo nada de errado com o local.
— Não é território de caça.
— Quem disse?
— Disseram.
— Disseram?
— Tá vendo algum outro caçador por aqui?
— Não mesmo, mas isso não quer dizer nada.
— Por quê?
— Tem muito caçador que se disfarça.
— Vai por mim, não há caçadores neste lugar.
— Então serei o primeiro.
— Primeiro não, primeiro é ruim.
— Ser o primeiro é muito bom.
— Vou te dizer uma coisa: ser o primeiro não garante nada.
— Como é?
— O pessoal vai rir de você.
— Não tem problema.
— Vão te odiar.
— Tudo bem.
— E te evitar na rua. 
— Não acredito que façam isso.
— Um dia um caçador mais jovem tomará o seu lugar.
— Ele que venha. 
— Quer arriscar?
— Sim, quero caçar aqui.
— Suponho então que você tenha a licença.
— Claro, demorou um tempão pra conseguir.
— E acha que vai se dar bem.
— Acho não, tenho certeza.
— Melhor eu ir andando então.
— Você tem meia hora.
— Só meia hora?
— Depois disso é cada um por si.
— Cuidará da minha família se eu perder esta briga?
— Não caço filhotes, prometo.
— Sei... então nossa amizade é isso? 
— Tá demorando muito, o tempo está correndo.
— Uma última perguntinha...
— Fala.
— Se eu pagar, por quanto você arrega?
— Deixe-me ver, o preço é o da tabela.
— Mais o por fora.
— É claro! Você pensa que vive onde?     

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