sábado, 1 de outubro de 2016

Minha breve história da pizza


O pessoal aqui de casa sempre apostou na pizza. Quando eu e meus irmãos éramos adolescentes, saboreávamos uma pizza família para cada um de nós aos sábados. Não tinha erro, à noite elas surgiam na cozinha, esticadas nas formas, preparadas e prontas para o forno as nossas pizzas.

Revezávamos o sábado das pizzas com o sábado dos cachorros-quentes. Mas a pizza, a pizza era uma invenção perfeita de minha mãe na cozinha de nosso três-quartos alugado na Zona Sul do Rio. Dizem que a pizza foi inventada na Itália, mas é mentira: um dia foram uns italianos lá em casa, provaram a iguaria e roubaram a receita de minha mãe. Ora, meu pai nascera na terra da bota, resolvemos contemporizar, ninguém queria se indispor com os carcamanos do primeiro mundo. Deixamos nossa vontade de reclamar pra lá.

Com a vida adiante, descobri minhas preferências: rego a pizza que for com bastante azeite, gosto de manjericão fresco, aprecio tomates maduros e o molho em quantidade razoável, não pode virar uma piscina de molho. Coloco orégano, azeitonas verdes ou pretas são bem-vindas, não sou fã de massa biscoito e curto também aquelas pizzas de massa aerada, comuns nas padarias e nos butecos do Centro. As bordas com catupiry eu dispenso, acho uma contribuição fraca à receita, eu nem acho catupiry um queijo gostoso.

Já fui a muitos rodízios de pizza, comi aquelas meias fatias com camarão frito, com tudo o que se possa imaginar, acho divertido. O rodízio de pizza perde até um pouco a graça depois que se experimentaram todos os sabores. Lembro que após os quarenta anos fica mais complicado adotar essa forma de diversão, tem que sobrar espaço para a pizza de chocolate, para aquela de banana. Para o refrigerante, a cerveja ou o vinho. Uma vez um amigo, depois de vinte e tantos pedaços, não titubeou: para arrematar a farra pediu um singelo suco de mamão. Hábito de gente fina, com certeza.

Ainda com relação à pizza, passei uma época com uma historinha na cabeça: eu não me conformava com o fato de que não há entregadoras de pizza, então pensei em uma história de amor que começava com um pedido de entrega em casa. Mas eu não consegui avançar na trama, porque me faltava o pretexto capaz de fazer a linda entregadora entrar na casa do cliente desconhecido. Sou fraco com esse lance de pretexto.
   
No prédio do meu irmão há um forno a lenha, que ele usou para dar uma festa em que serviu apenas pizza. O tamanho da mão de obra não permitiu que preparasse a massa, comprou as massas prontas e foi ótimo. Tem como se divertir preparando pizza, distribuindo o queijo na massa, os diversos ingredientes, metendo as formas no forno quente. Qualquer hora aprenderei a girar, jogar aquelas massas para o alto e recebê-las com as mãos, será um truque legal para impressionar as crianças.

Criança adora pizza.

Eu sinto o passar dos anos e certas coisas não mudam.

Todos adoram pizza.

Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outra crônicas em www.rubem.wordpress.com

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