sábado, 17 de setembro de 2016

Maratonas


— Saiu.
— Saiu mesmo?
— Sim.
— Deixa ver.
— Saiu.
— Saiu mesmo?
— Sim.
— Deixa ver.
— Já disse que saiu.
— Vê se não vai manchar de novo. 
— Vou tomar mais cuidado.
— Faça isso.
— Acho que ficou a marca.
— Marca?
— Olha direito.
— Não ficou marca nenhuma.
— Não tá vendo a marca branca?
— Não.
— Acho que vai pro lixo.
— Nada disso, conheço um tintureiro.
— Tintureiro?
— Você adora essa camisa.
— Que nada, joga fora.
— Por causa de uma marquinha boba?
— Eu adorava essa camisa.
— Usa em casa então.
— Em casa não.
— Por que não?
— Era minha camisa de ir ao cinema, vou usar em casa?
— Usa quando a gente fizer maratona de série.
— Nas maratonas... será?
— Vai ficar grilado por causa da marca branca?
— Claro que não.
— Vai broxar?
— Quê isso!
— Vai perder a fome?
— Até parece.
— E ficar com sono?
— Nunca, sabe que eu sou o rei das maratonas.
— Faz o que eu digo então: guarda a camisa.
— Tava a fim de doar.
— Vai se arrepender.
— Se você acha...
— Você fica sexy com essa camisa.
— Sexy é bom.
— Muito bom.
— Não vou doar.
— Não vai jogar fora.
— E nada de tintureiro.
— Nada de tintureiro.
— Vou usar durante as maratonas.
— Isso, amor! Você é o meu rei das maratonas.
— Eu sei, eu sou o rei das maratonas.   

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