sábado, 3 de setembro de 2016

A gente vai

Outro dia me percebi dizendo:

— A gente vai.

Era minha resposta a um convite para uns chopes e o que estava em questão era se eu ia ou não me juntar aos amigos para uma celebração de ocasião. A frase estranha saiu limpa, distraidamente e sem que eu hesitasse, como se fosse o mais normal deste nosso mundão manifestar-se desta maneira, expressando a vontade como parte de um coletivo que em meu nome vai ou deixa de ir a um lugar.

Pensei nisso na hora e logo me lembrei daqueles artistas varridos que falam de si na terceira pessoa. Ando assistindo muito à revista Caras (na antessala do meu terapeuta sempre tem uma) e virei um desses varridos, cuja imagem nas telas, nas revistas e jornais, de tanto uso, se torna muito importante. Só que não, o mau uso que fiz da língua foi tal, tão insatisfeito comigo eu estava, que precisei meter na conversa do chope um sujeito em terceira pessoa, tornando-me líder fictício de uma galera que não existe.
  
Se cabia a mim decidir o destino do povo? Vamos para esse lado, vamos para a estrondosa esquerda, almoçaremos no rodízio de massas da Evaristo, passaremos a tarde no CCBB. Beberemos depois uns chopes em nossa homenagem. A conversa será isenta. Logo seremos polêmicos, e libertos pelos petiscos garantiremos mais uma rodada na goela antes da saideira.

Um amigo dirá que o nós é bem melhor que o bloco do eu sozinho. Menos ego, mais diversidade. Surgem opiniões de todas as mesas de bar do Rio, surge a internet e a humanidade não se salva mais, ter opinião virou obrigação de coelho. Quem pode conta boas piadas. É a redenção.

Claro que a minha reclamação é sinal das dores. Carrego dores ocultas sob um céu de complacência: a multidão correta em triunfo, bradando palavras de ordem, para orgulho e glória do cronista intrometido. Sinto vontade de provar uma maçã, às vezes tenho fome e a maçã estava lá.

Aiai... esta divagação chique por causa de um sujeito mal colocado. Ninguém na curva quer saber de minhas exigências quanto às formas da língua portuguesa, a senhora de meu ego frágil, de meu fortuito aceite ao convite para uns chopes. Sei que nem sempre aparecem propostas e eu não posso mais que fiscalizar o uso que faço das palavras: a gente vai tomar o chope.

Acabou que não fui.  

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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