sábado, 6 de agosto de 2016

O vagão rosa


— Corre, vamos entrar.
— Nada disso, não vou entrar aí.
— Por que não? 
— Não está vendo que o vagão rosa é das mulheres?
— É, e daí?
— Não posso entrar nele.
— Deixa de bobeira, você está comigo.
— E isso garante alguma coisa?
— Garante sim.
— Claro que não, vou levar uma multa.
— Que multa, comigo é permitido.
— Não diz nada ali que entrar com você é permitido.
— Não diz, mas é óbvio. 
— Pra mim não.
— É óbvio que você não vai assediar ninguém comigo aqui.
— Pode acontecer de alguém pensar que sim.
— Se alguém reclamar, deixa que eu te defendo.
— Não quero precisar de defesa, quero ficar tranqüilo.
— Mas vai ficar, eu duvido que haja problema.
— E se houver? Você vai brigar com os seguranças por mim?
— Com os seguranças não dá, eles são homens.
— E se alguém filma e põe na rede?
— Você está preocupado demais.
— Se o vídeo viraliza, quem vai saber que eu estava acompanhado?
— Eu vou saber.
— Você não é minha mãe, não é minha chefe...
— Sou sua namorada...
— Posso perder o emprego, acabar banido das redes sociais.
— A internet não perderia grande coisa.
— Está vendo? Na hora do aperto é só relativizar, eu sofro sozinho.
— Vou no seu vagão então.
— Nada disso, e se alguém te assedia? Olha o problema...
— Como assim?
— Vão pensar que sou eu no vídeo.
— Vão pensar isso?
— Claro, o safado com cara de tarado serei eu, com certeza.
— Não acredito que você quer me largar sozinha no vagão.
— Amor, é melhor, na nossa estação a gente se encontra.
— Melhor não, faz uma coisa: cada um segue o seu rumo. 
— Sério?
— Terminamos por aqui, foi bom enquanto durou.
— Mas por quê?
— Você não é homem para andar ao meu lado.

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