quinta-feira, 21 de julho de 2016

De nascença

Não sei se a negritude terá vontade de comemorar, mas nos Estados Unidos a marca de uísque Jack Daniel`s, uma das mais vendidas do mundo, admitiu que na gênese da receita e das técnicas originais de purificação da bebida esteve um negro escravo chamado Nearis Green. Até hoje o mérito de tão bem sucedida receita era concedido ao reverendo dono da destilaria onde Nearis viveu como escravo. Mas na verdade foi o negro Nearis Green a ensinar Jack Daniel todos os segredos de fabricação da famosa bebida, que em 2016 completa 150 anos de sua criação.

O reconhecimento tardio faz pouco por Nearis Green, falecido com certeza há muito tempo, provavelmente pobre e esgotado. Mas acena com justiça para todos os descendentes de escravos no planeta. Há muito mais do que se orgulhar e não será este cronista o intrometido a elaborar uma lista. Cito o caso do uísque por ouvir dizer, eu nem mesmo bebo destilados.

Penso em negritude e aqui penso também em marcas de nascença. Pessoas por acaso trazem no corpo um atestado de parte de sua origem. Pode ser na inconfundível pele, pode ser na cor dos olhos, uma pequena impressão deixada pela genética acaba por servir de elo visível entre as gerações. Tais marcas adquirem importância, mas detêm um poder que ilude de vez em quando, importam também demais os laços de afeto entre os vivos, o que é bastante óbvio para mim. Só que para os descendentes de escravos a questão está longe de ser simples: toda ligação, mesmo que muito mínima, colabora para a construção de sua identidade destroçada pela diáspora africana.

Um dos conceitos mais interessantes que a negritude cultiva a partir da compreensão de sua história é o da consciência de ancestralidade. Já era um assunto quando pratiquei capoeira angola na década de 1990. Apesar de tratar da ligação entre nós seres e os mortos, garanto que é um conceito bem vivo e lamento por aqueles que não dão (ou não podem dar) importância a suas origens ancestrais, ao que pensavam seus avós, ou como viviam.

Viver o futuro através da compreensão do que somos é essencial e essa resposta surge para quem conhece e respeita a sua ancestralidade. Mesmo que conhecer signifique enfim seguir na direção contrária à que pregavam os mais velhos. Porque este mundo prossegue sempre no embate entre o velho e o novo. O que fica chamamos de tradição.
          
Hora neste parágrafo de agradecer, respeitosamente agradeço pelo jazz, pelo rock, pelo samba e muitas outras realizações cuja brilhante autoria nossa história hegemônica tenta ocultar de mim. Em vez de esconder, o uísque Jack Daniel`s sai na frente: oferece aos consumidores o seu exemplo. Tenho uma dúvida grátis se o sabor do bourbon dourado do Tennessee fica deste jeito mais gostoso. Ou mais justo. Talvez esse uísque apenas continue vendendo muito.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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