sábado, 2 de abril de 2016

Quinze minutos

Um senhor armou uma cadeira de praia diante de seu prédio e sentou-se ali, na função admirável de simplesmente contemplar a rua. Fez isso durante quinze minutos. Não falo de gente que vive no subúrbio, onde é comum ficar largado na porta da residência e ali confraternizar com os vizinhos, acompanhar o vaivém da rua. Aqui no meu bairro não existe isso. Ou melhor, não existia.

Hoje aquele senhor é o meu exemplo. É sinônimo de urbanidade, de uma civilidade que arriscamos jogar fora se passa batido por nós que a ira é sempre má conselheira e forma com o orgulho um casal de crueldade difícil de suportar. Sentado em sua cadeira de praia, em uma noite dessas que antecede a Páscoa, aquele senhor de sessenta anos observava o mundo, com uma paz que sabemos apenas aparente. Não havia como ignorar o clima sufocante das nossas últimas semanas. Mesmo assim, era bom vê-lo tentando durante quinze minutos, respirando com o talento de nadador olímpico. Bom vê-lo relaxar a face, enquanto descansava as pernas paradas sobre o chão de cimento frio.

Quem devia fazer isso era eu, pensa o seu cronista. Eu deveria ser essa fortaleza de quase bons sentimentos, assessorada por um corpo de paciência indelével. Só assim para abraçar o cotidiano nestes tempos de fúria, quando ódios novos e antigos querem porque querem a todo custo encontrar caminhos para virem à luz livremente.

E fico feliz porque não existe gênero melhor do que a crônica para transformar o que é peso demasiado em leveza, o que é rígido além da conta em superfície flexível: o senhor calmo diante de sua portaria, sentado como se na praia diante do mar, acompanhando o discurso perfeito das ondas brancas, o rebentar plácido na areia. Que inveja! 

Assistir àquele respeitável senhor foi minha epifania. Não se trata mais de meramente me render à polarização de opiniões, alimentando a fogueira onde querem tacar todos nós. Este cronista não deseja a fogueira para ninguém, quer é sua calçada de volta, quer ver a manhã bonita e decente, quer de volta a sedutora noite, por enquanto carrancuda.

Não sei se o tal senhor sabe do que estou falando. Meus leitores sabem. Não tenho feito outra coisa aqui que reafirmar a cada quinzena este viver: botar a cadeira de praia na rua, ou o que seja, ainda que por quinze minutos, observar minha cidade, escrever sobre o que é o coração.
  
Destaco sem medo de errar que não sou pedra dura. Ninguém é. Sei que às vezes há quem pareça, desculpe se desvio constrangido o olhar. Há pouco a se dizer, tenho inclusive os meus motivos. Pode ser que eu siga o exemplo genial da cadeira de praia na calçada e pare feito um tolo por quinze minutos. Mas corra depois também, muito e muito apressado, atrás de algo maior que conforte minha indignação.

Ainda assim, quinze minutos.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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