quinta-feira, 21 de abril de 2016

O paradoxo do antropoceno e outros papos de bar


1.
Antropoceno é a proposta de termo criada por alguns cientistas para designar o período mais recente na história do nosso planeta. Seria o nome destes séculos em que a ação permanente do homo sapiens começou a ter um impacto global no clima da Terra e no funcionamento dos ecossistemas. O papo na mesa era sobre isso.

Falávamos descontraídos do inimigo comum: nossa própria espécie, no caso. Daí então a política se meteu no meio (novidade nenhuma nestes tempos polarizados) e veio a pergunta em forma de paradoxo: por que o capitalismo aposta no que o ser humano tem de pior, ou seja, no egoísmo, na vaidade, na ganância, e obtém tanto sucesso? E por que o socialismo aposta no que temos de melhor, na solidariedade, na fraternidade, no companheirismo, e fracassa de forma tão lamentável?

Ninguém na mesa tinha uma resposta, mas a conclusão foi unânime: a gente precisa de uma solução. Este brilhante modelo de produção e consumo desenfreados destrói o nosso habitat neste planetinha, por enquanto ainda azul. Vão sobrar de pé somente os monumentos quando resolverem apagar as luzes do espetáculo. Teremos de achar outro lugar para performar.

2.
Já falei de barba por aqui, mas é que outro dia aconteceu: depois de mais de dez anos ausente por causa da calvície, voltei feliz e faceiro a uma barbearia. Comentava na mesa de bar que entrei na barbearia como se nunca tivesse abandonado aquela arena, e que a sensação de voltar foi muito boa. Hoje o barbeiro não tem mais o que futucar na minha cabeça, o trabalho dele é na cara e no pescoço. Fiquei vaidoso de vê-lo trabalhar na minha face, como se eu tivesse os mesmos direitos que uma dama fina a espalhar durante a noite cremes sobre o rosto. Os amigos disseram que o trabalho do profissional envelheceu minha cútis, tomada agora pela barba de visíveis cabelos brancos. Eu nem ligo, a idade pode ser um trunfo. Tanta coisa que fazemos melhor com o advento das décadas. Eu, por exemplo, me lavo melhor do que aos vinte anos. E mais não digo, para não desgastar assunto tão legal. Ao leitor deixo o prazer fortuito de colaborar com a lista, no exercício de sua valente imaginação. 

3.
Aqui em casa o aparelho de ar-condicionado deu para vazar água dentro do meu quarto. Chamei o amigo técnico, que parece ter dado nele um bom jeito. Não gostaria de trocar este aparelho por um novo e quero dizer que o sentimento vai além da questão financeira. Tenho um certo carinho por este aparelho de ar-condicionado, assim como tenho com o smartphone, assim como tenho com uma conta bancária aberta lá nos anos em que eu era universitário. Pois é, sou assim, pego carinho por coisas que não têm alma. O pessoal na mesa de bar achou essa frase muito dramática, no máximo se poderia dizer que vou contra a tendência. Como é? Qual tendência? Dizem que hoje o lance é mesmo trocar, deu defeito troca, troca-se evidentemente o amor. Deu defeito? Providencie um amor novo. Afeto novo, beijo novo. Somos nós. E eu tentando requentar uma emoção velha... não sabia que era capaz de tamanha sandice.

Benditos amigos.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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