sábado, 30 de abril de 2016

Defesa boa é a que funciona

— Diz aí uma coisa: você pensa enquanto come?
— Só na fome, e você pensa?
— Também não.
— Por que a pergunta então?
— Ando precisando pensar, mas estou sem tempo.
— Não tem tempo... o que você faz com suas horas de folga?
— Passo a maior parte delas me defendendo.
— Sei como é, tem sido difícil para mim também.
— Você se defende do quê?
— Outro dia mesmo eu tentava defender a minha mãe.
— Mãe é fácil defender.
— Não a minha mãe, defender minha mãe leva uma semana inteira.
— Semana passada eu precisei defender meu chefe.
— Aí não, defender chefe é muito ruim.
— Põe ruim nisso, a sexta-feira não terminava nunca.
— Mas no fim de semana você conseguiu pensar à vontade.
— Nada, eu tinha um churrasco com os amigos. 
— Sei.
— Tive que defender os amigos, não podia deixá-los na mão.
— E no domingo você relaxou, conseguiu pensar enfim.
— Depois do jogo eu bem que tentei um pouquinho. 
— Pensou o quê?
— Tive umas idéias, mas acho melhor refletir sobre elas.
— Opa, se precisa refletir é porque pensou coisa boa. 
— Não, até que não, bobagens.
— Conta qual foi a idéia. 
— Deixa quieto.
— Vou dar um conselho pra você: anota.
— Sério? Tem que anotar?
— Eu anoto tudo o que penso.
— E é muito tudo isso o que você anotou?
— Porra, é quase uma constituição.
— Uma constituição, que legal!
— É muita coisa, não vou negar.
— Se eu não me defendesse tanto, também poderia escrever uma.
— Não é fácil, e precisa caprichar no final.
— Já tem final?
— Sim, mas falta um título.  
— Que tal: a melhor defesa é o ataque?
— Já foi usado, eu pesquisei.
— Diga-me quem defendes e eu te direi quem és.
— Bastante óbvio, mas é por aí.
— A voz que pensa é a voz de Deus.
— Essa não, foge demais do assunto.   
— Acho que vou anotar o que falei.
— Anota mesmo.
— Não que eu ache que Deus precise de defesa.
— Não precisa, Deus é indefensável.

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