segunda-feira, 21 de março de 2016

O quarto

Um filme emocionante concorreu ao Oscar deste ano. Refiro-me a “O quarto de Jack”, longa dirigido pelo cineasta irlandês Lenny Abrahamson. Posso dizer que em menos de vinte minutos já estava totalmente capturado pela história da jovem seqüestrada, que no cativeiro se transforma em mãe de um encantador menino. É um drama de lágrimas.

Lembrei logo do bom “A culpa é das estrelas”, filme triste que tem um evidente defeito: o roteiro faz de tudo, tenta de todas as formas fazer o público chorar de emoção. A tentativa fracassa porque a intenção é nítida demais, os diálogos querem escancarar as portas do nosso coração. O resultado foi que a lágrima apontou no olho, mas a razão impediu que ela corresse pela minha face. Esta súbita razão protagonista é o que costuma fazer a gente se segurar, porque não perdemos a noção de que estamos no cinema ou em casa, tomamos consciência de que estamos apenas assistindo a uma história.

Em “O quarto...” não. Brie Larson interpreta a mãe, o menino Jacob Tremblay interpreta o filho Jack. Os dois conquistam o público. Seu trabalho faz com que percamos a noção de nós mesmos, somos desgraçados como os dois prisioneiros, a sensação é terrível. Sendo assim o corpo não se incomoda em chorar, as lágrimas correm livres. 

Muito se falou da brilhante atuação do menino. Não discordo, mas quero chamar a atenção para a ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante Brie Larson.  Brie criou para nós a mãe que, apesar de mantida presa por sete anos, jamais perde a condição de protagonista. Ela é refém do seqüestrador, mas não se acomoda no desespero, mantém o menino a salvo da influência do vilão, zela para que o menino faça ginástica, zela pela imaginação dele, imaginação que é vital para que ambos consigam sobreviver à loucura do confinamento. Mais tarde durante o filme será confrontada com esta condição de mãe protagonista, em momento-chave para a construção de sua identidade com algo mais que o papel de mãe.

Passou sete anos em cativeiro. Apenas mãe em um quarto escuro onde a vida se transformava em borrão, principalmente quando o seqüestrador a visitava cobrando sua obrigação sexual.
  
Penso no papel de protagonista. É o protagonista que erra, é para ele que a multidão olha, é sobre ele que cairão os julgamentos. Apesar disso, é o que muitos hoje almejam ser. Protagonistas não só das próprias vidas, mas das vidas da multidão. Todos querem ser líderes, querem esses importantes salários, todos querem o papel principal. O tesão pelo protagonismo é tamanho, que muitos famosos não se furtam à oportunidade de opinar sobre assuntos dos quais não têm a mínima vivência. O mote é a fama sem fundamento, celebridades posam para fotos e dão entrevistas, existe a demanda.

É claro que o verdadeiro protagonista em geral não reúne condições e talento para expressar o que viveu ou sentiu durante sua experiência. Surge também desta necessidade o artista, e a sociedade corrige aquela ausência com o sucesso dos romances, das canções, dos filmes, das biografias etc. Mas é bem freqüente a usurpação canhestra e simplória, nada mais que um simulacro da real experiência, sempre em nome do entretenimento.
  
Aiai... minha reclamação é água sob a ponte. Fica aqui a lembrança de um belo filme e um alerta contra as fracas opiniões e representações. Nada a ver com as atuações de Brie Larson e de Jacob Tremblay. Em “O quarto de Jack” eles são mesmo Joy e seu filho de cabelos compridos, cabelos dos quais ele extrai sua incrível força, capaz de fazer a mãe e o menino perseverarem.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;