quinta-feira, 10 de março de 2016

Dias difíceis

Meu dia difícil começa após a noite mal dormida, quando o corpo desperta com uma estranha sensação de inchaço morno, ainda que a noite tenha sido abençoada pelo ar condicionado. Abro os olhos repentinamente, algo perto de um susto, a face tomada por congestão nasal. Os cães latem.

Será um dia daqueles.

Não há café da manhã capaz de vencer esta impressão complicada, forjada durante vários sonhos perturbadores. Acordei na madrugada com o primeiro dos meus sonhos, fui até a cozinha, degustei o sabor doce de um iogurte. Voltei para a cama. Vieram mais sonhos da mesma lavra.

Uma hora seria preciso levantar.

Uma hora seria preciso tomar banho. A força da poderosa água fria comunica ao corpo que devo entrar em ação.

Leio o jornal, hora de conferir o que uns consideram importante que eu saiba. Não sei se jornalistas apreciam o sujeito que acorda deste meu jeito: as notícias são assimiladas distraidamente, não reflito sobre o que os senhores bacharéis planejam para hoje, a opinião pública que se dane! Saí do banho há pouco e já estou suado! Faço por bem evitar a zona que é minha consciência cidadã, arrisco a seção de esportes.

E dou a leitura por encerrada. Hora de vestir a armadura, tenho de alcançar um estado de alerta que me leve em segurança pelas ruas. Alerta ao trânsito, alerta ao movimento de pedestres, alerta às ciclovias. Alerta! Que o humor é o da sobrevivência, bom dia, tudo bem?, tudo bem.

Afinal, sinto o cansaço. Nada que eu coma possui o talento de me fazer largar a modorra. Nuvens cinzas poluem o meu céu, uma tempestade imaginada se forma e eu sob seus raios e pingos gelados.

A realidade me desconecta. Sigo desconcertado e constrangido sem a conexão, não posso contestar, o defeito é meu e tento o melhor de mim. Passo pelas pessoas, observo os rostos abrasados pelos dilemas. Todos vivem. Minha vontade é corrigir o mundo. Mas corrigir o quê? Se começo por mim e minha vida é um desacordo.

Não protesto.

Vou apenas me entregar às tarefas do trabalho, na esperança de que o ambiente profissional ajuste o meu estado de ânimo. Entrego-me. Ocuparei o tempo com meus afazeres, talvez as tarefas regenerem minha alma, que está atravessada de promessas incompletas e porção básica de afeto.

Deposito fé na passagem das horas. Tempo engraçado, tempo vilão, tempo valente protagonista. Espanta as quinas frustrantes dos problemas. O metrô está próximo e depois dele virá a portaria do prédio em que trabalho, onde marcarei com digitais meu horário de chegada. Desço as escadarias da estação do metrô e aguardo a composição.

Entoo com vontade uma canção romântica dos anos 80. Não tenho a menor ideia do que acontece comigo.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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