quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Resenha de "Rebentar", de Rafael Gallo

















"Rebentar", primeiro romance do contista Rafael Gallo (376 páginas), publicado em 2015 pela Editora Record, cativa o leitor, se é que posso chamar de cativante uma história de perda tão aguda. O assunto de "Rebentar" é sofrido, este romance trata das dores de Ângela, mãe cujo filho pequeno desapareceu durante um passeio em uma galeria de lojas. O menino Felipe some na loja de brinquedos, ninguém sabe como e Ângela passará os trinta anos seguintes à sua procura.

Percebo de imediato a tarefa perigosa a que o autor se propôs. Mas Rafael cumpre bem sua promessa e com louvor, preenchendo as páginas de "Rebentar" com a essência original de Ângela, a mãe que decide enfim, depois de três décadas, encerrar as buscas pelo filho desaparecido. Está tudo contado neste livro, que poderia ser até uma reportagem, sabendo que o autor fez valiosa pesquisa. Mas veio a ficção e ela dá conta desta mãe: desde a maturação da ideia de renúncia até o espanto dos parentes e amigos. Como assim, Ângela quer seguir adiante? Uma mãe desiste algum dia de seu filho?

Rafael faz questão de responder esta e outras incontáveis perguntas. O cotidiano de Ângela é examinado mês a mês durante o período de um ano, um ano em que a decisão dela é pela vida testada sem qualquer clemência. Ângela enfrenta o tempo e seus danos com determinação. Não sabe se o que deseja é redenção, até mesmo a redenção parece destino proibido à mãe que perde um filho. Ângela padece de uma dor sem solução: mesmo que encontre Felipe, trinta anos depois não será o mesmo Felipe. Será um estranho. Aquele Felipe se foi.

Este romance exibe uma técnica admirável, tanto na construção da narrativa quanto na construção dos doloridos personagens. A protagonista não escapa nunca da atenção do narrador, nenhuma nuance de Ângela é ocultada. Rafael provoca assim compaixão por um drama que muitos gostariam de evitar conhecer. Mas eu não consigo, seu controle sobre o que narra impressiona e cria passagens memoráveis, como a que descreve o momento em que um possível comprador do imóvel observa o quarto intocado da criança desaparecida.

Lido este romance, fica incumbido o resenhista de contribuir de alguma forma com uma história tão importante. Devo dizer que talvez fosse bonito ler o que se leu contado por um narrador preocupado não só com a técnica, mas também com expor vez ou outra a própria emoção. Contudo, a escolha de Rafael é compreensível, uma história de labirintos como esta exige cuidado e um narrador por demais livre e emocionado talvez cometesse erros imperdoáveis. São muitas as mães como Ângela, é preciso fazer justiça e ser sensível. Faço o meu registro.

Ler "Rebentar" cativa enquanto romance e pode funcionar também como alento às famílias diretamente atingidas por um drama deste porte. Estas qualidades salvam "Rebentar" de minhas exigências pretensiosas. Bela estréia.

Rafael Gallo iniciou sua carreira literária com o livro de contos "Réveillon e outros dias", vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012 e finalista do Prêmio Jabuti de 2013. "Rebentar" é seu segundo livro. Saiba mais sobre o autor em www.rafaelgallo.com.br

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