sábado, 6 de fevereiro de 2016

Dois diálogos pré-carnavalescos














1.
- Esse ônibus não vem, a gente tá perdendo o bloco.
- Não posso perder esse bloco, tô cheio de cerveja no isopor. 
- Eu também.
- Olha o ônibus lá.
- Tá vindo.
- Parece que não vai parar, tá indo por fora.
- Tem que parar, não é aqui o ponto?
- O motorista não vai parar, quer ferrar a gente!
- Que desgraçado!
- Ele não tem mãe.
- Que homem ruim, tá tentando ir embora.
- Ôoooo, a gente é trabalhador, motorista!
- Nós precisamos trabalhar, também somos filhos de Deus.
- Abre a porta, motorista!
- Abre na rua mesmo. 
- Ele não quer abrir.
- Babaca, se eu tivesse uma pedra jogava.
- Que morra! Que tome tiro por aí.
- Se fosse lá na comunidade, mandava passar fogo.
- Merece.
- Deixa ele, o que é dele tá guardado.
- Vamos perder o bloco.
- Vamos para o outro ponto. 
- Lá vão ter que parar.
- Pro próximo motorista a gente oferece uma cervejinha.

2.
- Essa máquina que você tá levando é muito boa.
- Por enquanto está boa, facinha de guiar.
- O motor tá tinindo. 
- É novo em folha.  
- Queria dirigir um ônibus assim, pra mim só dão carroça.
- É sorte minha.
- Sorte sua, a minha vai ser trabalhar todos os dias de carnaval.
- Como é que você sabe?
- O desgraçado já me adiantou.
- Quê isso, a escala vai ser assim: trabalha dois dias e descansa dois.
- Pra mim não.
- Ele quer te sacanear então.
- Sacaneia todo dia.
- Por quê?
- Vai saber? Não gosta da minha cara.
- Você tem que dar o troco.
- A vingança é de Deus, irmão.
- Fosse comigo, dava um murro na fuça dele.
- Eu preciso do emprego.
- Se quiser, eu conheço uns caras que podem fazer o serviço.
- Deixa que o dele tá guardado. 
- Deus não resolve isso não.
- Um dia ele resolve, irmão.
- Então amém.
  
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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