quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Lábios macios












- Vem, me dá um beijo.
- Agora?

(trocam um beijo apaixonado)

- Sentiu?
- Sentiu o quê?
- Não sentiu nada?
- Claro que senti, fui nas nuvens.
- Foi nas nuvens? Isso é resposta?
- Quer dizer, senti um tesão incrível.
- Sentiu tesão, sei...
- Não era pra sentir tesão?
- Era, mas elabora isso um pouco mais.
- Como é?
- Explica melhor esse tesão que você sentiu.
- Por que isso?
- Quero saber como foi o beijo pra você, explica pra mim.

(silêncio)

- Hoje é alguma data que eu esqueci?
- Não tem data nenhuma.
- Então que história essa de explicar tesão? Senti tesão e pronto.    
- Você teve uma ereção?
- E como.
- E isso acontece sempre que a gente se beija?

(silêncio)

- Digamos que quase sempre.
- Quase sempre? Eu estou duvidando.
- Foi um beijo tesudo.
- Jura que você não percebeu nada especial no beijo?
- Especial sim, claro, foi especial. Muito.  
- Olha o meu batom.
- Ah essa cor é linda, é um tesão. 
- Não é a cor, homem de Neanderthal!
- É o quê, então?
- Este batom tem uma propriedade que deixa os lábios mais macios.
- Sim, agora eu me toquei. Seus lábios estavam macios mesmo.
- Não estavam?
- Muito, tipo um veludo, mas sem os fiapos. 
- Ai meu Deus, não é veludo. 
- Eu achei que sim. 
- Quando foi que você beijou veludo?
- Quando?  
- Vá à merda você e o veludo.
- Não faz assim, me deixa experimentar de novo.
- Esta boca de veludo você não beija mais hoje.

(ela sai da sala)

E ele pensa naquela boca beijada. Imagina tanto aqueles lábios macios que mal pode esperar para fazer as pazes até a noite.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outra crônicas em www.rubem.wordpress.com

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