sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A primeira vez
















Ela tinha cerca de dezesseis anos e com ajuda de um rapaz tentava aprender a andar de bicicleta. Eu deslembro quando foi a minha primeira vez com a bicicleta, mas sei que foi com muito menos idade, tinha menos de oito anos com certeza. Dezesseis não é a idade ideal para este tipo de lição, a confusão em si é grande, falta paz para assimilar que o aprendizado exige tempo e paciência. Ainda assim ela insistia, o rapaz ajudava.

Estavam concentrados. Aprender a andar de bicicleta é uma façanha inesquecível e eu de longe os admirava. Não trocavam beijos, o que me deixou curioso sobre a natureza da relação entre os dois. Decidi para mim antes de começar a escrever esta crônica: eram namorados.

O rapaz sortudo portanto assumia um papel importante que costuma ser dos pais, aquela uma oportunidade única: no coração da sua garota participava carinhosamente do momento mágico. Era quase uma primeira transa, era quase um primeiro beijo!

De repente, naquele mesmo parque do Aterro eu já não precisava de rodinhas, deslizava sobre o asfalto quando criança e em duas rodas, o mundo incrível mais uma vez, o que era mesmo o medo?

Percebi daí que o casal estava no local errado para o aprendizado. Escolheram um trecho da ciclovia sim deserto naquele meio de semana, mas era um trecho de leve aclive. Subir atrapalhava o sucesso das tentativas, a bicicleta adernava para os lados, a bicicleta talvez fosse também muito grande para ela.

Eu gostaria de ter dito aos dois todas estas coisas. Com o tempo e a paciência o sujeito apura a percepção, só que a simpatia da gente vai no sentido contrário, meio que some aos poucos. Sinto que viro uma tartaruga de casco feio e enrugado, entregue às minhas teimosias.

Fala-se muito hoje de empatia, que é rara, e por isso tentam cultivá-la, para ver se ela ao menos nasce quadrada. Uma empatia quadrada há de ter serventia, especulam. Eu não sei. Para quê? Desconfio desta sociedade individualista que temos. Não acredito em anúncios publicitários, desconfio de líderes. Ninguém ouve, poucos conversam, todos sabem.
  
A simpatia pode não abrir portas, mas oferece a sala. Com algum esforço, com educação oferece. Às vezes uma simpática frase estabelece uma conexão valiosa. Olha, eu não quero vender nada mas que tal se...

Tolice minha. O mundo vai na direção que vai, o cronista arrefece. O silêncio do parque do Aterro colaborava com minha preguiça de rugas e tartarugas. Bastava dar umas dicas a eles, mas eu não estava seguro de ser bem recebido.

Olha que ela está desistindo.

Desmontou da bicicleta. Ser simpático, dá pra ser ou não? Eu precisava deles mais do que de mim. Precisava vê-los perseverar. Estou deste pobre jeito e invadia a ciclovia rica cheio de autolimitações.

Foram embora sem tentar de novo aquela primeira vez. Foram para quem sabe quando voltar! A bicicleta bonita parada na garagem valeria como um prêmio de consolação. Um presente novo será o sucesso da noite de Natal.
    
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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