domingo, 29 de novembro de 2015

A feira e o queijo

Sábado pra mim costuma ser o sábado de ir à feira. Eu quase não compro nada: cogumelos, temperos, peixe, às vezes fico só no pastel com caldo de cana, às vezes provo um ou dois bolinhos de bacalhau.

Aquele era um sábado frio, que não combinava nada com o provável verão do ano que vem. Este El Niño não mexe apenas com o clima, mexe com o nosso coração, que empedernido busca acreditar no bom astral da feira do bairro. Era o que eu fazia e fui assim parar na barraca dos queijos. Adiante outro feirante vendia vasos de plantas trazidas de Teresópolis. Um dia paramos por ali e escolhemos um vaso de alecrim, mas naquele fim de semana eu não queria plantas, nem queijos, parei no queijo para fazer hora enquanto, surpresa!, a notável Insana examinava os vasos de plantas perfeitamente acompanhada. Ela parecia querer levar para casa um daqueles vasos bonitos.

A bela Insana mora neste meu bairro mas não sei até hoje seu endereço. Relembro as vezes em que a vi por aqui e tento descobrir daí o prédio, não sei pra quê, com certeza não faria a menor diferença. O sabor desta mulher que aparece e desaparece da calçada é fantasia, ela é uma visão perene que toma forma, ela é um assunto de vagas probabilidades. Brinco de pensar nela, brinco de tentar descrevê-la.

Naquele sábado, sua companhia era um senhor, velho magro magro que bem poderia ser pai dela. Era o que eu imaginava dos dois, eu parado na barraca dos queijos, testemunhando aquele homem dar em cima dela, dar também uma espécie de aula sobre plantas. Em segundos eu ouviria a resposta dela, ouviria a voz dela novamente, voz que eu não ouço faz muito tempo, desde que cessaram nossas ocasiões. Ocasiões... nunca tivemos ocasião nenhuma, conversamos o quê? Um par de vezes, como eleitores indecisos.

A distância daquela sua voz no tempo e no espaço fez com que eu me aproximasse mais, precisava ouvir aquela voz, o som daquela boca aberta era uma lembrança repleta de erotismo. O vendedor de queijos não entendia minhas intenções, eu um cara atrapalhado pelo tesão e pelo decoro, como ouvir o que ela responderia àquele senhor soberbo que a acompanhava?

Passou naquele instante uma peste que oferecia limão e alho. O moleque disse algo, puxou-me pela camisa e a concentração de meus pobres ouvidos moucos falhou retumbantemente. Alguma frase fora dita por ela, que deu a mão àquele senhor detestável, deu a mão!, e juntos desceram a ladeirinha, sem levar plantas. O que ela disse? Talvez uma concordância simples, obedecendo ao dono da sabedoria, umas palavras breves, valendo o gesto de afeto. As mãos dadas de ambos eram as de um casal. Seriam namorados. Namorados! Eu não poderia jurar outra coisa.

Dei por mim diante do vendedor de queijos. Nas minhas mãos quebradiças um queijo de Minas curado, um queijo quem sabe do vale do rio Doce. Rio Doce, rio Doce, descendente de Minas Gerais!, lamento muito o que fizeram contigo! Somos nós, essa lama impossível somos nós. Lama distante de minha porta, a Insana também longe, só o queijo curado ao meu alcance, minhas mãos sujas com a tragédia do rio Doce.

- Semana que vem eu levo o queijo.

O feirante foi gentil, semana que vem também se faz negócio. Semana que vem a feira será montada no mesmo lugar. Mas não sei se levarei o queijo. Aqui em casa sobra, só damos conta de metade. Metade. Metade.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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