sábado, 31 de outubro de 2015

Saudade de uma pelada














Recebi um convite para uma pelada outro dia. Já faz tempo que não toco numa bola de futebol e se fossem outras minhas condições físicas teria ficado feliz em aceitar. Mas declinei do convite. Por quê? Tenho a receita.  

1) Abandone qualquer atividade física habitual
É o carma do ser urbano. Em vez de lutarmos para matar a fome do mundo, abandonamos a prática dos exercícios. A vida na metrópole é tão confortável e violenta, que aprendemos o caminho mais fácil da segurança doméstica. O noticiário é tão legal na tevê que é difícil ser organizado, a gente se rende feliz um dia no sofá e aquele dia se perpetua pela vida, como naquele filme da marmota com Bill Murray. Ser expert na programação dos canais a cabo também rende muita conversa e demonstrar como sabemos de tudo é o passatempo de 90% da humanidade. É tanta informação inútil que nossa energia vai para o ralo. 

2) Conheça os bares e choperias
Eu sei, ela sabe, nós sabemos que aquele chopinho é inevitável. Não é à toa que se gasta uma fortuna tentando nos convencer a beber esta ou aquela cerveja. Não é à toa que tem sempre uma mulher gatíssima nos comerciais dizendo que cerveja a rodo deixa a gente mais atraente. É claro que ninguém acredita, o que gera mais um conflito entre o gênero masculino e feminino: um e outro mentem no comercial, um e outro fingem descaradamente que acreditam. A verdade é que o chope gelado revigora a existência, os bares mais vagabundos ficam mais interessantes, faz-se amizades que vão durar a vida inteira dos bêbados. O papo prossegue de forma infinita. O calo na barriga cresce sem dó e a ideia de dieta nunca faz sentido.

3) Prove as delícias que tiver vontade
É tanta oferta do mesmo cardápio que o sujeito magro fica sem opção e entrega-se desanimado. Ele quer é uma comidinha nova em algum lugar bacana onde possa também levar a namorada para comer salada. Ele quer é um petisco inimaginável, que passe como iguaria pouco calórica. Só assim o papo na mesa não vai rondar os exames médicos que o cara morre de medo em fazer. Para compensar o pavor, na hora do almoço, sem a namorada, é comida a quilo por todo o enorme prato, especialmente preparada para encher o cara de sal até que peça um refrigerante e também a sobremesa. Se bebe um chope então, depois do serviço e antes de chegar em casa, come um petisco, toma um chopinho. De novo e sempre. Mais vale um petisco na boca do que dois no salão voando.

4) Esqueça a boa postura no local de trabalho
Se o sujeito trabalha sentado, convenhamos: por que não escorregar de lado na cadeira? É tão fácil e gostoso, force o corpo no rumo errado, esqueçamos a inteligência! Mostra que aguenta o tranco! É a memória da selva jurássica, mania de parar à espreita da mesa. Na mais louca posição possível. Dos efeitos adversos cuidamos mais tarde, quando ficarmos senis.

Estes são meus quatro passos no caminho incrível do perfeito sedentário. São o adversário deste peladeiro em questão. A conta chega um dia, a minha chegou em forma de uma pancinha. Delicada e bonitinha. 

Ai ai, talvez o futebol não seja mesmo o esporte mais adequado neste momento. Ainda mais para mim que encerrei faz tempo minha vibrante carreira como atacante viril e rompedor de canelas. Cadê a explosão e a vitalidade? Que saudade dos meus pés na fôrma.
               
Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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