sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Chope pra três

Eu tomava um chope depois do serviço e o sol do fim da tarde anunciava que logo ia embora, estava quase na hora daquele lusco-fusco que prepara a noite. É sem dúvida minha hora predileta, a luminosidade costuma ser incrível, o mundo ganha em controvérsia: é um mistério o que ocorreu durante o dia, é uma promessa o que virá durante a noite.
  
Nessa tarde entrou por acaso na choperia uma amiga. Não nos víamos há muitos meses e depois dos abraços e beijinhos sentou-se comigo para matarmos juntos a saudade. Formidável ter companhia nessa hora, podíamos até com intimidade contemplar em silêncio o momento único.
  
Mas ela não estava nessa vibe de contemplar. Fez valer o encontro, foi me colocando a par do que rolava na sua vida. Céus, que vida agitada! Em vão eu procurava penetrar naquele inspirado monólogo. Depois de uns quinze minutos, creio que ela sentiu minha necessidade e fez uma pausa para respirar. Calou-se por segundos, como se dissesse: era a minha vez.

A tarde findava, eu não estava mais só. E a vida?

Respirei fundo e ia dizer tudo. 

Mas não tive chance. Duas amigas dela passaram pela rua diante de nossa mesa e as três também não se viam há muito tempo. Muito menos tempo do que eu, pelo que entendi, apenas duas ou três semanas. O que são semanas perto de dois ou três meses? Só digo isto: perdi a prioridade.
  
É claro que fui apresentado. Mas rapidamente as três enveredaram por uma conversa curiosa em que todos os assuntos exigiam comentário. Não conheciam facebook. Mal consigo citar um dos assuntos, fiquei perdido com a velocidade. Lembro que falaram dos respectivos cães de estimação, eu também tenho um e fiquei na esperança de conseguir também contribuir.

Ainda que estivéssemos na sombra de uma árvore frondosa, uma do século do Brasil colônia, diante de um pôr-do-sol límpido e matador, ainda assim eu seria perto delas o cara calado. Resignei-me. Pelo menos não conferiam os celulares e estavam lindas animadas com a própria conversa.

Uma delas propôs tomarmos um café, mas percebendo minha óbvia preferência pelo chope concluíram que café seria inadequado. Eu agradeci a gentileza e esta foi a única palavra que proferi durante o feliz encontro das três amigas: um obrigado com a sinceridade que eu podia. Sincero de verdade.

Depois de duas rodadas de chope, o papo terminou com a mesma velocidade com que iniciou. Naquele momento as três amigas precisavam partir, louvaram aqueles dois chopinhos clássicos e a bendita conversa que alegrou a noite. Despediram-se de mim como se fôssemos mais amigos desde então. Beijinhos e abraços.

Foram embora. E o meu lusco-fusco passara, as luzes da cidade acenderam sobre a rua e sobre a minha mesa. Não havia mais nada a fazer do que ir para casa, a noite prometia solução para alguns, o meu dia seguinte era de pegar contente no batente.

Nem precisa perguntar, não há imagens do evento.     

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;