sábado, 31 de outubro de 2015

Boa noite














Um senhor vinha à noite subindo a ladeira, mancando de uma perna, enquanto eu descia a rua com meu cachorro durante nosso passeio noturno. O homem subia com uma determinação tranquila, apesar de sua evidente limitação, como se seu esforço incomum não tivesse nada a ver com o movimento incompleto de sua perna. Era apenas uma questão de  simples movimento, chegar quem sabe em casa, quem sabe onde.

Percebi na hora que a imagem mexeu com minha memória. Como um lago onde se toca o fundo, as águas da memória turvaram com a força desastrada do meu toque, fracassei em conscientemente recuperá-la. Fui descendo a ladeira, era pouco mais de nove da noite, noite jovem portanto.

Escrevo sobre o encontro mas quase me arrependo. Não sei do que se trata o assunto e não quero errar. Ignoro o que fazer com essa imagem, sei que era importante, mas me falta a conexão. Minha memória não é tão boa quanto o ego me faz crer. E reconstrui-la seria tão bom ou mau quanto olhar para o lado e desligar do senhor negro que subia a ladeira.

Parecia só. Mancar era o seu exercício e eu tinha o meu cão, que puxava a coleira querendo cumprir logo o passeio. Sentir solidão quando se observa alguém que está próximo é estranho, se há duas pessoas justas e estão sós, que compartilhem a calçada e a lua no céu! Acontece.

Penso também em nós como personagens, o protagonista na calçada sou eu e um homem sobe a ladeira mancando. Enquanto escrevo tomo a calçada dele, agora sou eu e esta crônica, sou uma espécie de ladrão. Mas é que se escrevo, algo além de nós vive através da crônica e me redime. Não há como negar. Atravessa o tempo a energia do nosso encontro fortuito, para a frente e para trás, como estava planejado, diriam alguns. Não há ausência, há papéis. O espaço e a memória preenchidos, esta retocada feito um quadro, quem lê decide sobre a história da ladeira: se eu que descia com meu cachorro ou se aquele senhor que subia mancando.

A memória narra veladamente esta experiência. Eu poderia ter parado o sujeito e feito uma selfie importante. Mas é claro que não tirei foto alguma. Continua aquele momento sendo da memória, que não me diz por que ele é importante, memória que um dia irá falhar outra vez, quando reconstruída pelas sensações do presente. Existirá a noite úmida e o silêncio da rua?

Somos ele e eu um e outro, passando um pelo outro na calçada, e não sei qual a marca com que gravo este instante. O rosto do homem eu já  esqueci, seria uma imagem adequada da memória, seu rosto estacionado na lembrança como chave de um momento enigmático.

Quando nos cruzamos finalmente na ladeira, ouve a rua toda um boa-noite claro e amistoso da parte dele, um boa-noite que não existe mais, um boa-noite de um vizinho em terras antigas e precárias. Um boa-noite cordial entre homens, um cumprimento denso e vivo, que não tem mais lugar. Ficou sendo portanto a noite daquele boa-noite, um boa-noite que só faz sentido no espaço compartilhado, um boa-noite gratuito durante uma noite banal. Sem rosto de parte a parte, uma saudação quase apenas sonora.
  
Eu nunca pensaria em não responder. Procurei imediatamente devolver o favor e emprestar ao meu boa-noite a impressão de lembrança. Talvez signifique algo para ele, ou mesmo nada. Mas se nada, de qualquer forma, esta é a história, de um senhor que manca subindo a ladeira e que deseja boa-noite como um sábio protagonista. Afinal, subia. Enquanto eu descia. Creio que as direções importavam.

Publicada na Rubem - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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