domingo, 6 de setembro de 2015

Meus olhos bem fechados

Eu seguia para a Cinelândia, no meu caminho um clássico sinal de trânsito, um tão cheio de gente viva ali parada, gente esperta esperando o momento de atravessar, gente tão viva que sentiria vergonha o roteirista de uma série de zumbi qualquer. Avistei uma amiga entre aquela gente do outro lado da Rio Branco, além do caminho aberto para o veículo leve sobre trilhos que entra em operação ano que vem. O sinal verde de atravessar veio de repente e minha amiga simplesmente fechou os olhos. Veio então para o meu lado da calçada, desafiando com passos firmes aqueles que atravessavam no sentido contrário ao dela. Passou por mim, passou por todos, eu bem reparei. Imagino que do outro lado abriu os olhos e prosseguiu em frente, dona completa de seu nariz, dona de uma coerência que ignoro.

Minha amiga dos olhos fechados, dos livros rente ao peito! Seus olhos estavam entregues à esperança de palavras sinceras? Eu pergunto: foram amores demais ou amantes de menos? Cem sonhos iam no sentido contrário, você nem estava assustada, a multidão não te faz cócegas!

De olhos abertos você detestaria aquele momento, antes de preencher a sua, a minha tarde com vaticínios comprados no pipoqueiro da esquina. No vendedor de artesanato, de quem você compra a briga se o chamam de mendigo. Mas a forma vagabunda daquela emoção no meio da rua talvez fosse uma lembrança de bom desejável tamanho.

De olhos abertos fica possível se apaixonar, ou descobrir enfim por que odiar. Poderia também perceber como o seu sapato era feio e o meu tênis também. Ou então se culpar por ganhar finalmente bastante dinheiro. Mais do que o povo vivo na rua preocupado com problemas financeiros. 

De olhos abertos você lembraria do sucesso na reunião daquela manhã, você tentaria atrelar esse prazer secreto a um objeto colocado conforme planejado no seu caminho, um objeto ou serviço que valesse aquela espécie de satisfação preciosa. Mas uma decisão importante, para lá de importante, que todos ignoram, obrigou suas pálpebras a baixar naqueles instantes. Foi mágico.

Dezenas de pessoas olharam ao mesmo tempo para você. Não o bastante para um vídeo ou meme da internet, mas a relevância foi grande. Eu quase me entreguei a bater palmas de tanta admiração.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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