domingo, 9 de agosto de 2015

Ciclovia na calçada dos outros é refresco

Na movimentada calçada da minha rua encaixaram uma ciclovia. Encaixaram mesmo, quem vê pode atestar, uma ciclovia que brilha, aposto que no exterior ganha até prêmio pelo padrão digno de uma Amsterdã. Os ciclistas incham o peito de orgulho quando passeiam por ela, eles e suas bicicletas de humildes pedais, os olhos lacrimejam com a qualidade antes impensável do passeio.

Antes eram obrigados a pedalar nas ruas, metiam-se perigosamente entre os carros, levavam sempre desvantagem. O que é uma bicicleta diante de um capô de um carro? Ou diante de um invencível ônibus? Bicicleta e ciclista viravam paçoca, o povo corria para ver a desgraça.

Pois o mundo mudou para melhor. Agora os motoristas de carro, de ônibus, caminhão ou moto não precisam se preocupar com as arrojadas bicicletas desviando-se diante do para-brisa, o problema não é mais deles. O problema agora é do pedestre. Fica a população incrivelmente aliviada, nada de acidentes horríveis a não sei quantos por hora.

O pedestre está que nem se contém com a responsabilidade. Não avisaram ao sortudo que terá de fazer autoescola para caminhar na calçada. Lá vem o ciclista naquela velocidade fraquinha de bicicleta pedalada, quem passa primeiro? Quem tiver mais necessidade, eu arrisco. É a chance de uma corrida muito curiosa, o pedestre e a bicicleta, que século XXI!

Espero que não haja campanha contra essa invenção moderna, a bicicleta é uma descoberta tremenda, pedala em qualquer calçada na boa. Se trouxer para o convívio com o pedestre a mesma civilidade que os ciclistas exibem ao trafegar entre os carros, será motivo de eureca!

Falo assim porque conheço quem já foi atropelado por bicicleta. Acompanhava os carros que vinham no sentido do trânsito, pretendia atravessar a rua, quando por trás veio uma bicicleta na contramão e zás! Pedestre ao chão, golpe terrível, não houve danos porque possuía saúde invejável, foi só uma questão de se levantar do chão e ouvir os pedidos de desculpas. Quantas desculpas, o dono da bicicleta tinha horário, precisou sair rapidinho, saiu de fininho. Esqueceu de deixar o nome do médico para os exames de rotina, as radiografias e tal. Acontece, ainda não inventaram seguro para isso.

Eu não conheço quem seja contra as ciclovias, a ideia alcançou por aqui um consenso unânime. O pessoal vai muito a Amsterdã e não serei eu, que nunca estive lá, a escrever linhas tortas sobre um avanço tão óbvio. Acrescento apenas que teria sido bom se a comunidade tivesse sido consultada sobre o assunto, mas essa prerrogativa de quem mora no bairro, poder escolher o que deseja de melhor para o local onde vive, não é uma ideia igualmente moderna. Pelo menos não tanto quanto as ciclovias.

Igualmente moderno seria apresentar o projeto aos moradores, submeter a quem caminha pelas calçadas do bairro a escolha do melhor traçado. Não dá muito trabalho, conversar não dá trabalho, conversar dá prazer. Quem seria contra uma ciclovia? Ciclovia é tudo de bom.  

Do jeito que está, uma campanha educativa faria um bem enorme, o povo poderia ver na tevê como é que se faz em Amsterdã quando muita gente está indo para o mesmo lado. Dizem que lá sabem as respostas porque são muito civilizados, talvez possam nos ensinar. Importemos umas lindas holandesas sobre duas rodas! Que elas se multipliquem pelas nossas ciclovias com suas madeixas loiras e olhos azuis. Muita gente vai gostar.

Vai dar até casamento.

Publicada RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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