sexta-feira, 31 de julho de 2015

Resenha de "A primavera entra pelos pés", de Vivian Pizzinga

Estes novos contos de Vivian Pizzinga afagam a consciência, passo a trafegar pelas horas entretido com a tarefa desta resenha, tenho algo a dizer das 113 páginas de "A primavera entra pelos pés", seu segundo livro de contos, lançado pela Editora Oito e Meio em junho deste ano.

Se a arte de escrever é na essência contar histórias, posso dizer que Vivian Pizzinga consegue conjurar com talento suas histórias, este livro é uma prova irrefutável, é escritora e sua arte brilha. Leio seus contos e percebo a tentação bem sucedida de enxergar de perto as protagonistas. Nas linhas de sua primavera vive uma prosa que se adensa com eloquência e vai povoar serenamente o imaginário.

O cenário dos seus contos é urbano, mas os personagens vivem às voltas com prioritárias questões internas, o outro surge como inevitável problema. O diálogo interior é o assunto, seus meandros, suas artimanhas, a gênese das armadilhas. Solidão não é dor, ideia que surpreende porque escapa acertadamente do senso comum. Solidão é condição para o convívio. Está no princípio de existir, quando ela não se estabelece como se deve ocorre o fracasso, comprovado na eficácia do conto "Palavrório" e no certeiro "A vida é jazz".

Vivian sabe ser impiedosa, quer espaço fora da autoinvestigação? Verá que não conhece tampouco o outro, confira em "O agregado". Importa a solidão vista de fora? Leia "Horas a fio". Preocupado com os pais no dia da mudança? O nome de teu conto é "Idiossincrasias".

Parece um contrassenso cuidar da solidão quando o mundo está tão preocupado em tirar toda a vantagem possível das imagens. Mas não é um contrassenso, ser sozinho pode ser uma identidade sagaz se a partir da solidão conquistada construimos um sentido útil de pluralidade.
   
Creio que o leitor não encontrará nestes belos contos sugestões de bom comportamento ou dramas sobre pequenos milagres cotidianos. O cotidiano está presente, não poderia deixar de estar, mas quando surge vem sem pompa, vem como observação do que é preciso sentir para que os males do deixa-pra-lá não sobrevenham. A experiência dos personagens pode trazer certo amargor, é isso ou não se escreve. Ou mesmo não se lê.

Este "A primavera entra pelos pés" exibe temperatura que considero curiosa: suas páginas podem ser mornas e agradáveis, podem ser frescas e vitais, podem ser geladas e estranhas no contato com a vida da gente. Vai depender do precioso clima da estação.

Publicada no CABANA DO LEITOR. Leia esta e outras resenhas em www.cabanadoleitor.com.br

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