sábado, 11 de julho de 2015

Bom sujeito

Estava à noite em uma praça cheia, toda aquela gente descontraída, quando a ambulante me pediu que tomasse conta um instantinho de seu isopor repleto de gelo e bebida:

- É só enquanto eu vou ali comprar mais doze.

Intimidade é aquilo que o leitor conhece, não vou nem comentar, o homem gasta sossegado na praça duas noites seguidas de sexta-feira e a vendedora de cerveja já acha que ele é um bom sujeito.

Deve estar tatuado de alguma forma na minha testa.

Eu até sou um homem que anda com troco, uso ônibus, metrô, um homem assim precisa de trocados. Tenho em casa um pote especialmente para as moedas. Mas naquela noite eu já não tinha trocado algum e o meu primeiro cliente queria comprar uma long neck com nota de cinquenta.

- Aí não, assim você me quebra.

Ele não tinha menor. Terceirizei, botei o cliente para tomar conta do isopor enquanto eu trocava os cinquenta. Ninguém deu uma força sequer, tive que comprar uma cerveja para trocar a nota. Ficou elas por elas.

Logo comecei a temer pela minha reputação, será que a dona das cervejas sabia quantas bebidas havia no isopor? Cogitei abandonar a tarefa. Afinal, estava trabalhando de graça. Teorizei comigo sobre a vendedora sem noção, solidariedade é isto? Tentei lembrar em que tratado estava escrito que ela merecia essa ajuda. Sorte dela que eu não tinha mesmo nada melhor a fazer com aquela sexta-feira, peguei uma cerveja e relaxei. Ainda que a competição fosse duríssima. Havia isopor para todo lado.

Mas não fugi do serviço, oferecia cerveja para a mulherada, evoquei meu passado de vendedor, uma mulher passava e eu oferecia. Não deu em nada. Pelo menos as notas de cinquenta sumiram da minha vista.

Dali a pouco um homem se aproximou.

- Cadê ela?
- Ela quem?
- A dona da cerveja.
- Foi comprar mais cerveja.
- E você quem é? O marido dela?
- Não, não sou o marido. Quer cerveja ou não?
- Vou esperar sua mulher.

O bêbado era um que merecia o leitor sabe o quê. Garçom! Eis um profissional a ser lembrado quando o assunto é psicologia. Haja paciência! Ele me vigiou durante uns dez minutos, comprou cerveja em outro isopor, voltou. Mais dez minutos e a dona da cerveja apareceu. Acho que eu pedi bastante a Deus. O bêbado fez questão de deixar claro:

- Estava aqui de olho no seu marido. Dá mais uma!

Ela entregou a cerveja, pegou o dinheiro e o espertinho foi embora.

- E aí, vendeu muito? - ela perguntou para mim. 
- Só esta minha aqui. 
- Só uma?
- Foi.

A dona da cerveja não fez cortesia:

- É cinco reais.

Paguei. Paguei e me mandei na hora.
   
Isso é o que dá ser o bom sujeito da história.

É isso ou a crise.
  
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com 

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