sexta-feira, 12 de junho de 2015

Tantos assuntos

Não se trata de escrever aquela crônica sobre falta de assunto. É a grande quantidade de assuntos que move este cronista hoje. Procurei incansavelmente por um motivo que determinasse a crônica desta semana, mas agora, no momento de escrever, os assuntos todos saltam na minha cabeça de neurônio em neurônio, como se fossem bolas de basquete.

Cabeça de cronista é engraçada. A gente segue a vida para que ela não nos siga, assim não perdemos a vida nunca de vista. Porque na hora de escrever temos que estar no mesmo passo que a danada, a gente acelera o passo e alcança a sincronia, com o fato cotidiano, com alguma epifania. Eu estava nessa levada. A vontade era tanta que encontrei vários assuntos ao longo dos dias, fiquei sem saber o que fazer. Tentei separá-los um a um para ver qual era o mais interessante, anotei no papel em forma de tópicos para escolher um deles e guardar os outros para as crônicas seguintes. Fiquei insatisfeito. Tentei daí achar entre eles algo que compartilhasse as várias ideias, procurei, procurei feito um publicitário. Fracassei.

Pensei em apelar, escrever em papeizinhos, jogar para o alto e catar o ganhador, mas isso me pareceu desonesto. Concluí por fim que eu sofria à toa, não era falta de dedicação ou talento. Tinha apenas sucumbido aos milhares de estímulos a que estamos expostos todo santo dia. Reinava a confusão, afinal são tantos assuntos, faltava concentração.

Concentração. Esta sim é a preciosa qualidade que colore as figuras desses livros da hora. É a razão dos best-selleres. Capacidade de concentração na era da simultaneidade, se ligou no assunto? Estamos ligados em tudo, mas envolvidos profundamente em quase nada. Caí nessa sarjeta agora, sou um cronista paralisado pelos múltiplos estímulos.

Meu cão, por exemplo, ia virar assunto, foi fazer uns exames esta semana, eu estava preocupado. Mas então duas amigas serão mães no mesmo dia, pensei em escrever algumas linhas bonitas. Só que houve um acidente de carro estranho no caminho das minhas corridas, um homem enorme tremendamente calmo tentava apaziguar os ânimos de um baixinho furioso. Podia também entrar nessa.

Cronista está sempre se metendo em tudo.

O hábito da crônica cria esse cacoete, que se manifesta querendo examinar cada pedaço do cotidiano, como se fôssemos agentes contra a rotina. Tem quem escreva assim, mas também tem quem faça diferente. Vá entender.

Agora mesmo, enquanto escrevo, rola uma partidinha de futebol no playground do prédio ao lado, eu poderia gastar meu tempo olhando. Fazer como disse Domenico de Masi, praticar o ócio criativo.

São os estímulos. Vivem de tentar convencer a gente, não há um cheiro de flor no ar a nos conquistar como poética experiência, temos sempre que comprar alguma coisa. Essa diretriz surge nas mais diversas variações, a que eu gosto mais é a seguinte: precisamos fazer alguma coisa, porque a vida está passando, temos que aproveitar o dia! Aproveitar como? Às vezes, o melhor é não fazer nada.

A crônica saiu enfim. Meio atrapalhada, aos trancos e barrancos, mas creio que ela funciona. Gostaria apenas de redizer que não foi a vez da crônica sem assunto, esta aqui é uma crônica sobre muitos assuntos.

O leitor há de compreender.
  
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;