sábado, 27 de junho de 2015

O amargo

Eu tenho acompanhado o debate sobre o valor do sal e do açúcar em nossa dieta contemporânea. Entre o doce e o salgado, ficamos como se entre o fogo e a frigideira, surge a obsessão por esta dialética: ela gosta mesmo é de brigadeiro, ele cai de boca em qualquer coxinha.

Outro dia um sabor amargo forçou uma discussão da relação: 

- Onde é que você foi?
- Estava com a turma.
- Seu beijo está com gosto de petisco.
- Está é?
- O que você comeu?
- Comi um queijinho.
- Que queijo o quê! Parece alho, você comeu alho?
- Belisquei um frango à passarinho, amor.

A palavra amor no final da frase queria dizer desculpa, ele já imaginava o esporro que poderia vir logo adiante. Talvez fosse possível suavizar a bronca apelando para a paixão do início da relação, os dois costumam fazer isso. Ele tentou, mas não deu certo. O amor na história virou uma faca de dois gumes, foi a senha para o início da DR.

Ela não tolera o sabor amargo de tê-lo esperado por tanto tempo sem que desse qualquer notícia. Para ela este amargo é feito de algumas renúncias, possui uma liga que provoca ansiedade e insegurança, por isso ela rejeita o amargo onde o amargo estiver. Nem o manjericão fresco da pizza é tolerado, a dama precisa é de chocolate, doce de leite, sorvete.
  
Para ele o amargo da cerveja incomoda, nem é de beber muito, come mais petisco do que bebe, o que não o impede de ficar tonto. O amargo dele é feito de uma acomodação que não consegue evitar, o cotidiano reina sobre o desejo e sua criatividade está bloqueada. Beber não resolveu o problema, mas o frango à passarinho estava delicioso, comeria duas travessas inteiras daquela.

Discussão de relação é um troço delicado e talvez seja essa a razão pela qual muita gente a detesta. Tem que ser sutil, tem que ser franco, tem que ser honesto, tem que ser paciente, tem que ser atento. Não pode ser burro: nunca seja amargo. Ser amargo é proibido na discreta arena de uma discussão de relação. Ganha-se como prêmio pela decisão temerária o fim da esperança. E sem esperança tudo o que se consegue é uma inimiga terrível pela vida afora.

Mas sobre a sina do amargo... creio que o amargo pode ser algo posto na salada misturado com uma porção de comida excelente. O amargo serve para muitas coisas, no mínimo serve para a gente dar mais valor ao sal e ao açúcar. Não pode ser aquele amargo frio que invade congelando o coração, mas pode ser a medida certa que devolve o sabor gostoso da vida.

Este cronista fala, mas não pratica o que diz. Sou um que não aguenta amargor, comi jiló uma vez para nunca mais, não adianta nem esconder o jiló no prato, aquele será detectado. Também ainda não aprendi a beber café sem açúcar ou adoçante. Talvez um dia eu chegue lá.

Penso: que mal há em ser amargo um tanto?

Melhor que azedar a alma de vez.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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