sábado, 30 de maio de 2015

Perfume

- Você vai usar perfume?
- Sim, por quê?
- Mas você nunca usa perfume, o perfume fica aí, evaporando.
- Hoje eu vou usar.

(pausa desconfortável)

- Você está me traindo.
- Eu não. 
- Então por que o perfume?
- Faz tempo que eu não boto perfume.
- Você não precisa botar perfume.
- Por que não?
- Porque ninguém repara em você.
- Ninguém?
- Meu amor, depois de uma certa idade, ninguém repara mais. 
- Nem você repara?
- Eu não disse isso.
- Você disse para eu não usar.
- Eu não disse pra não usar.
- Você não faz questão que eu use.
- Não, não faço.
- Por quê? 
- Fica estranho, depois de um tempão sem usar, botar perfume para ir ao cinema?
- Nunca é tarde para mudar.
- Não precisa mudar, eu gosto de você assim.
- Você não gosta de perfume?
- Eu gosto de perfume em mim, você não precisa.
- Por que eu não preciso?
- Meu amor, assume: você é um ogro. Quer que te reparem pra quê?
- Eu sou um ogro?
- É, meu ogrozinho lindo.
- Você nunca disse isso pra mim. Ogro?
- Pra tudo tem uma primeira vez. 
- Mas nós já estamos juntos há anos. Você diz isso agora?
- Hora de você se tocar que não é nenhum galã de novela.
- Mas eu não quero ser galã, quero usar este perfume.
- Esse perfume feminino?
- É de mulher este perfume? Você me deu perfume de mulher?
- Eu nunca pensei que um dia você fosse querer usar.
- Deu por quê então?
- Era seu aniversário e eu estava sem ideias. Você é chato pra dar presente. Além do mais, eu podia querer usar também às vezes.
- E você nunca usou. Ele está cheio.
- É porque ele é meio enjoativo.   
- Então não é pra botar o perfume?
- Meu amor, esquece o perfume.
- Tá bom, vamos embora que a gente vai perder a sessão. 
- Toma uma balinha pra disfarçar o bafo.
- Bafo? Eu tenho bafo? 
- Ué, um pouquinho, nunca te falei?

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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