domingo, 17 de maio de 2015

A mulher que chora

Por que aquela mulher chora? Ela chora e passeia com o cachorro, quer reter as lágrimas com as mãos e esconde os olhos vermelhos, briga com a manhã ensolarada enquanto eu corro na briga para perder peso.

Não quero imaginar que chora por um amor perdido. O mal estar que atinge o coração das mulheres é para nós homens sempre obra de um amor perdido. Mas para esta mulher que chora não, ela chora por algo que eu não sei imaginar.

Talvez seu choro seja sua resposta para este século XXI. A mulher corre atrás do seu melhor destino dentro da espécie e encontra por isso toda sorte de obstáculos possíveis. Querem controlar seu corpo, querem dar ordens nele, pretendem com força de comando dizer-lhe o que deve ou não fazer com a sua beleza, com a sua libido, com o seu amor. Sendo assim, ela briga com a manhã e chora pelas ilusões que seus olhos têm de encarar.

São tantos os conflitos que a mulher disposta pode se confundir e cair no abismo de ódios abissais, quem pode julgar as que se perderam no pote dos ressentimentos?

Ela chora porque a manhã bonita não combina com seus receios, com os assédios e as violências. Ela sente pelas mulheres que se culpam pelos erros de outros, pelas que escorregam para dentro de si mesmas e se enclausuram em uma cadeia obscura. As injustas condenações não escapam de seu coração imenso, sobra espaço nele para todas aquelas mulheres submetidas por uma entidade sinistra com muitos nomes.

Uma mulher foi atacada porque ousava estudar, outra porque ousava ter amantes sem fim, outra foi agredida porque precisava de uma voz. Quantas foram exterminadas por alimentarem desejos? O desejo da mulher é uma obra em progresso, que também transforma e enfrenta a ignorância humana. Quando ele é simplesmente reprimido, sobra um tanto a mais de crueldade no mundo. E o que construímos perde sentido, pois não fomos a solução, não incluímos neste planetinha uma resolução que a dinâmica da espécie gerou.

Ela chora, mas o instante passa, eu passo por ela e gostaria de parar e quem sabe conversar um pouco. Mas não há o que fazer, cumprimos nossa rotina perfeita. Amanhã serei outro e ela também não será a mesma, amanhã ela pensará no que vestir diante de um novo dia de trabalho. Vestirá sua flexível e sedutora armadura, as ruas serão cenário de sua determinação feroz, disfarçada de beijos e abraços gentis. Em cada ônibus, em cada vagão de metrô ou carro no trânsito, haverá mulheres da mesma lavra.

Durante a semana, esse choro de um passeio com o cachorro nos ensinará muitas coisas, porque nele esteve contida a expressão do que então não veio à tona. Uma dor oculta que vai causar a revolução de amanhã. Os cadafalsos, as fogueiras e guilhotinas não existem mais, mas a dor por uma emoção que ainda não vive existe no coração da mulher.

Será aquele choro o sinal de uma esperança para o mundo?

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com  

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