sábado, 18 de abril de 2015

Olhar à primeira vista

Eu não sei se os olhos são a janela da alma, como dizem por aí. Mas tenho visto de tudo através deles, por aí eu tenho visto amor, ternura, ódio, inveja. É tanta emoção nos olhos da gente que até perdemos a profundidade com uma bobeada, transforma-se o outro em uma linha: o sujeito é alegre, o sujeito é triste, é bravo...

A tentação de classificar é grande, ajuda com a nossa pressa sem remédio. Aquele é comunista, aquele é neoliberal, aquele é gay, aquele é homofóbico. Entre um e outro lanche surge uma troca de olhares com aquela estranha da mesa ao lado, putz, essa daí é doida varrida. Trocou olhares comigo? Deve estar numa fase meio epiléptica.

Passeio pela rua e vem de lá uma conhecida, papo do balcão da padaria, trocamos uma vez uma ideia sobre futebol. É raro conversar com uma mulher sobre futebol, qualquer ocasião é perfeita quando se conversa com uma mulher sobre futebol. O colóquio esportivo nos torna conhecidos? Sorrio ou não sorrio, olho, não olho, se olho, o que digo? Ainda cruzo na rua com ela neste exato instante, ela resolve olhar, eu olho também, ela retira o olhar sem qualquer caridade. Toma...
  
Só este mundo bestial pode parir desencontros como esse. Não lhe concederei nem mesmo o breve brilho de minha gostosa retina, nós que por instantes compartilhamos palavras. Palavras não serão suficientes desta vez, palavras foram o meu engano, a verdade é esta rejeição simpática, esta feliz incompatibilidade não captada pelas câmeras.

Deixa para lá. Uma vez percebi um olhar que este sim me chocou bastante. Vinha de alguém que não tinha direito a ele. Foi um olhar rápido e furtivo, possuía uns raios de silêncios deslocados, repletos de ingratidão. Eu sem dúvida não o merecia. Há quem tenha (verbo ter) tanta felicidade que a felicidade de mais um se torna uma ofensa invencível. Disseram que o objetivo desta zorra toda é ser feliz, muitos que acreditaram acham que o seu destino é ser o grande campeão! Aqueles olhinhos vermelhinhos às vezes são só o flash mesmo.

Imagino que olhos grandes sejam uma desvantagem natural diante de tantas câmeras fotográficas. Explico: ou você se esconde muito bem dentro de seu coração vadio ou quem você é estará estampado em imagens cruas na rede. Daí esse teatro todo de hoje, a quantidade de artistas. Se a gente chama a vida de luta, de batalha, o quê esperar? O mais lógico é cuidar dessa imagem, ganha mais quem finge bem.

Encontrei outro dia uma amiga minha que sempre teve uns olhinhos miudinhos, semicerrados, mal dava para ver a cor. Aquelas pálpebras filtravam tanto o mundo que corriam o risco de ficarem pesadas para sempre. Eu nunca comentei nada, nunca tivemos tanta intimidade. Não é que agora essa amiga abriu os olhos pra valer? Foi como se nascesse, imagino o quanto se preparou. Ela finalmente sentiu-se à altura do desafio que é este mundo de cretina ferocidade. Lá estavam diante de mim os olhões encarando o universo, o corpo foi no mesmo embalo, os braços também falavam, a boca comunicava de fato. Virou mulher.

Por outro lado, tem uns caras que são meus heróis e conseguem olhar para um lado e realizar coisas do outro, como se fossem craques do esporte, capazes de jogadas que iluminam os nossos caminhos. Vi muito isso na capoeira, vi também no jiu-jitsu. Mas o papo de hoje diz que não basta só olhar, a exigência é foco, foco, foco. Viramos câmeras. E esses heróis que vi, homens e mulheres, faziam e fazem coisas incríveis sem olhar, sem foco, sem câmera. Eles fazem, não brinco não. Fazem.

É a minha impressão.
      
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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