terça-feira, 24 de março de 2015

Resenha de "A cidade é um rim", de Felipe Boaventura




Entregar à cidade a condição de protagonista. Esta é a razão de ser deste "A cidade é um rim" (80 páginas), seleção de contos curtos de Felipe Boaventura, obra vencedora da FLUPP 2013 (Festa Literária Internacional das UPPs), publicada pela TextoTerritório. É a sua estréia como escritor, já chancelada por um importante prêmio literário, o que provoca no leitor atento expectativa e curiosidade.

Não é de hoje que se diz das periferias que elas não têm representação no cenário literário, dominado em suas diversas instâncias por grupos da Zona Sul que projetam seus eleitos e repartem entre si os louros das vitórias. Felipe Boaventura agita nesse corre-corre literário enquanto novidade, esperam que traga consigo uma proposta periférica valiosa, não foi alçado à posição de representante dessas regiões relegadas do Rio? Este cômodo raciocínio não corresponde à realidade de "A cidade é um rim", Felipe não demonstra interesse por uma lógica criativa que divida a cidade em partes, enxerga o Rio de Janeiro como filtro mesmo e não como tessitura de correntes. Monta suas breves narrativas a partir de instantes que seus olhos julgam merecedores do filtro.

E os instantes brilham: em "Balão", por exemplo, homem e menino vencem os anos de distância e encontram uma forma singela de se comunicar; já em "Vermelho", Felipe evidencia como o mundo adulto e formal assimila os inevitáveis desentendimentos humanos; em "Suburbana", apura o olhar para encontrar de forma corajosa o que é uma mulher estranhamente motivada para o amor; "Incursão na Av. Delfim Moreira" é seu conto periférico mais representativo, inverte a estrutura social desta cidade e funciona como espelho de nossa hipocrisia; e o conto final, que empresta o título ao livro, encerra o volume em forma de ode à melancolia, melancolia que extravasa do narrador e permeia toda a obra.

Tenho que dizer mais de "A cidade é um rim", algumas aparas precisam ser feitas: uma e outra experiência com a linguagem não contribuem para o resultado final, devem ser encaradas apenas como tais, só experiências. Tenho que dizer também que o tamanho curto dos contos não exclui a necessária reflexão sobre sua relevância, alguns contos simplesmente não funcionam, seja porque merecessem maior extensão, seja porque merecessem uma atenção mais cuidada.

É claro que encaro os inevitáveis descuidos como infinita vontade de publicar, está feito, a obra está entregue à cidade que lhe serviu de pedra bruta. O Rio de Janeiro certamente agradece o retorno, esperemos que Felipe Boaventura continue a publicar. Filtrar a cidade é uma vocação feroz.

Publicada no CABANA DO LEITOR. Confira esta e outras resenhas em www.cabanadoleitor.com.br

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