sexta-feira, 20 de março de 2015

Esquerda e direita

Aconteceu duas vezes. Quase fui atropelado por uma bicicleta quando cruzava a ciclovia distraidamente, enquanto zerava o cronômetro ao iniciar minha tradicional corrida. Creio que o descuido foi em função de um problema que tem assaltado meus dias: tenho convivido com uma incapacidade danada para discernir a esquerda da direita e vice-versa. Sério, atravessei a pista da volta na ciclovia olhando para a direita, a mão contrária, eu e a ciclista quase nos atingimos, foi uma sorte do céu, porque ela com um desvio ultra-rápido foi embora, eu fiquei parado, feito um ser do mundo bestial.
  
Esta confusão entre as duas direções fundamentais tornou-se desde então frequente, naquele instante eu a detectei, e já me afetava por um tempo desconhecido, impossível de estimar. Se eu fosse abusar da memória, recurso cheio de falhas e enganos, ficaria dias perfeitos na busca, desisti logo. Outro algo que poderia fazer é me corrigir, procurar provas da confusão, coisas da direita largadas fora de lugar, no lugar onde caberia melhor um outro algo da esquerda. Negócio de maluco, faz algum sentido?

Talvez alguém pense daquela ciclista, que quase atingi com minha distração de olhar errado para a direita, que ela não teve peitos de parar a bicicleta ali mesmo na ciclovia e me passar o esporro que eu merecia. Não sei se foi bem isso, da segunda vez em que cometi o mesmo erro, desta vez estava olhando para a esquerda na pista de ida, era um homem na bicicleta e ele também não parou. Talvez seja uma norma de convivência da ciclovia: não se estresse, não vale o estresse, apenas siga em frente.

Em frente dá para ir, é a direção para onde costumo olhar, não é garantia de segurança, acidentes podem ocorrer também, mas pelo menos sigo a vocação do tempo. Quando não olho para baixo cansado... porque olhar para a estonteante direita e para a fascinante esquerda dá um cansaço de monge. Para que pagar o preço de se viver em uma cidade caríssima como o Rio se não consigo apreciar a vista?

Gostaria de saber onde é que eu protesto. Eu preciso, eu tenho que correr diariamente. Assim corro o risco de ser atropelado por uma corrente contrária bradando que não conheço as normas de convivência. Assim fica difícil, alguém paga analista que explique o que é a direita e a esquerda? Duvido e é óbvio que o especialista fica rico de simplesmente ouvir meus delírios loucos de uma cidade utópica, onde seguir à direita ou à esquerda seria simplesmente questão de ir em frente.

Esqueci que também existe a possibilidade de voltar atrás, aí no caso eu desistiria do meu exercício e recorreria ao boteco da esquina. Lá não existe problema de direção, o sujeito bêbado aproveita o sexto sentido que o guia no caminho de casa. O bêbado chega em casa sempre, nem se preocupe, vai vai vai, pode atravessar, cuidado com o degrau da calçada, pronto, tá em casa, a chave tá no bolso. Alguém ouve a turma do sujeito gritar esquerda ou direita? Para o bêbado, esquerda e direita não existem, é só uma forma de dizer boa noite ao cidadão que entrega o seu discernimento para a turma do boteco.

E no trânsito, eu me arrisco pouquíssimo, não sou ágil ou veloz o bastante para os caminhos, viro para a direita, putz!, esta direita é uma merda de direita, ou então tomo a esquerda, esquerda deserta e sem sinalização, cacete!, esquerda sem saída. Gosto quando o táxi tem GPS ou Waze com uma voz sexy orientando, que troço legal!, ninguém se dá ao trabalho de questionar a sanidade da virgem, a galera até sonha que transa, é o sonho de plantão: eu vou, mostra o caminho, tira minha roupa que estou adorando.

Na boa, assim mesmo: sem saber o que é direção, seguimos na esperança safada de que tudo dê certo. A gente se vira com o instinto. 

Publicada na Rubem - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;