quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O selfie de amor venceu






Mais um de nossos costumes ficou para trás. Segundo levantamento feito por uma companhia de seguros britânica, que buscava descobrir qual a mais bonita carta de amor de todos os tempos, 46% das mulheres ouvidas consideraram que escrever cartas de amor é uma tradição ultrapassada. 38% admitiram jamais ter escrito uma em toda a vida.

Eis a era imagética dos selfies. Caminho por qualquer praça da cidade e percebo os apaixonados às voltas com suas imagens, registrando em selfies de amor os momentos espetaculares que vivem. São fotos feitas para mostrar, para perpetuar o momento, são o nosso passatempo. Já as últimas cartas de amor do mundo, todas juntas, formando um calhamaço envolto em cordão de seda, estão guardadas e esquecidas nas gavetas dos velhos amantes.

Não se trata de saudosismo, não quero transformar o que passou em paisagem idílica, este é o mundo que temos, apenas cabe esta ressalva: o maravilhoso momento hoje está pasteurizado pela lógica do sorriso e da felicidade, somos alegres e felizes como nunca, é a vitória do carpe diem levada às últimas consequências. Qualquer imagem que mostre menos do que essa felicidade exaustiva é logo tomada por indício de perigosa melancolia, se insistir é a odiosa tristeza, piorou é depressão, ataca-se com medicamentos. Há uma farmácia de sucesso aberta em cada esquina.

Já escrever cartas requeria outro esforço que o da representação de felicidade: carta boa era aquela em que o autor mergulhava para dentro de si mesmo, para dentro do outro, era uma exposição que os novos tempos rejeitam, seja em nome da preservação da imagem, seja em favor do bem-estar social.

Havia um quê valioso de confissão nas cartas, elas revelavam nosso coração. As palavras têm essa incrível força, porque também revelam o que não dissemos, pelo que está nas entrelinhas. Escrever uma carta de amor era se desnudar tremendamente, a carta se transformava em símbolo da mútua paixão. Valia como um tesouro.

O problema da carta de amor era estar à altura da tarefa. Tirar um selfie de amor é fácil, basta posar com o ser amado durante um abraço e lá está eternizado o instante, registrada como tem de ser toda a felicidade. Escrever são outros quinhentos, é preciso ter domínio sobre a língua, é preciso saber acessar o coração, fazer da emoção uma ponte para a palavra. Existia o medo de falhar, errar no selfie de amor é quase impossível, haja vista os recursos de que uma máquina fotográfica dispõe, mas errar ao escrever uma carta de amor era provável, o sujeito mencionava o que não devia ser mencionado, esquecia de dizer o que na verdade precisava ser dito. Não tinha escapatória, uma carta de amor não era volátil como os selfies, amanhã esqueceremos o selfie que passou, teremos outro. Uma carta de amor é perene. Quando não era rasgada em um acesso de raiva.
  
A pesquisa feita pelos britânicos elegeu como a carta de amor mais bonita de todos os tempos aquela escrita pelo cantor country Johnny Cash para sua esposa June, por ocasião do aniversário dela em 1994. Foi escrita para a mulher que amava, é simples, honesta e direta, cheia de afeto.

Não era preciso mais do que isso.

Segue a íntegra da carta.

"Feliz aniversário, Princesa.

Ficamos velhos e nos acostumamos um com o outro. Pensamos coisas parecidas. Lemos a mente um do outro. Sabemos o que o outro quer sem perguntar. Às vezes, nos irritamos um pouco. Às vezes, não nos damos importância.

Mas, de vez em quando, como hoje, eu medito e percebo o quão sortudo sou por compartilhar minha vida com a mulher mais incrível que conheci. Você ainda me fascina e me inspira. Você me faz melhor. Você é o objeto do meu desejo e a razão número um para minha existência. Te amo muito.

Feliz aniversário, Princesa."

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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