segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Prometer é fácil, cumprir é o problema













Se houve algo que me incomodou durante todo o ano de 2014 foi o hábito de fumar. Eu já havia prometido no distante 2013 que naquele dezembro, ao completar 40 anos, abandonaria o vício. Fracassei estupidamente nesse intento e passei o ano passado inteiro fumando e me recriminando, tecendo críticas amargas a mim mesmo.

Desgostar de si quando jovem é certamente uma ingratidão, na melhor fase do corpo fulano acaba por viver em desacordo com o viço esplendoroso que é a juventude. Mas o erro é compreensível, porque muitos demoram para alcançar um mínimo de equilíbrio na jornada, o equilíbrio às vezes chega tarde mesmo, envolve afetos, envolve dinheiro, envolve objetivos de vida. Agora... desgostar de si aos quarenta é tão abominável que para esse a maca deveria ser obrigatória. Parar é a solução, fumar aos quarenta decididamente afeta a autoestima.

Nunca busquei um grupo de apoio para me livrar do vício, optei por usar os adesivos de nicotina. Fumo desde os dezesseis anos, mas fumava na aba dos outros, principalmente quando bebia, só passei a fumar mesmo, comprar maço, quando atravessei um período de depressão severa aos trinta anos. Venci a depressão, mas adquiri o hábito de fumar.

Os tais adesivos de nicotina até que funcionam bem, suprem o vício, mas não eliminam o hábito: fumar bebendo, fumar depois de comer, fumar escrevendo. Vencer esses condicionamentos é duro e não é uma questão de força de vontade, vontade é o que te faz fumar quando dá na telha. Na verdade, abandonar o vício é uma questão de obediência, obediência àquele que antes decidiu parar de fumar: eu mesmo.

Muitas vezes em 2014, para não me sentir mal, me consolei pensando que a batalha é sim difícil, o fumante que deseja parar enfrenta uma legião de profissionais que gastam milhões de dólares para descobrir como mantê-lo viciado. Uma vez me perguntaram em qual empresa eu não trabalharia de jeito nenhum, eu disse na hora: companhias de cigarro. Não sou contra o sujeito que vende cigarro ao consumidor final (que eufemismo para fumante!), se ele vende, tem quem compre, sou contra os iluminados que ganham a vida estudando o ser humano para descobrir a melhor maneira de viciá-lo em veneno.

Sejamos sinceros, fumar é prazeroso, se não fosse não haveria centenas de milhões de consumidores no mundo. Para mim, o hábito de fumar está relacionado à alegria, ele veio com a adolescência e o prazer de estar junto dos amigos, veio com a bebida, com as saídas à noite e as azarações. Azarar uma garota de mãos vazias? Sem chance, tinha que ter algo valioso nas mãos, tinha que fingir estar fazendo alguma coisa importante, eu ficava fumando. As garotas gostavam, os comerciais ajudavam, aparecia na televisão o galã bonito pra cacete fazendo esporte, escalando montanha, surfando, explorando o mundo com uma música incrível ao fundo, e então no fim ele acendia um cigarro com aquela expressão bestial de prazer inesgotável. A cara de pau dos publicitários era pavorosa.
  
Hoje, se conheço uma mulher que fuma, praticamente perco o tesão por ela, imagino que o mesmo deva acontecer com as mulheres quanto a mim, ponto inestimável para a seleção natural. Meus amigos da antiga já pararam de fumar, alguns até viraram atletas veteranos e perderam bastante peso. Eu estou ficando para trás, ainda que em 2014 tenha conseguido ficar doze dias direto sem fumar. Já consegui ficar um mês inteiro anos atrás, voltei não em ocasião de tristeza, voltei quando reinava a alegria. Dá um cigarrinho aí.

Desta vez, prometi que o último foi aquele dez minutos antes da passagem do ano. Estou firme desde lá, cumprindo a promessa, espero que a data redonda ajude. Depois a gente cuida do excesso de peso.
                
Publicada na RUBEM - Revista da Crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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