sábado, 27 de dezembro de 2014

O canalha fundamental

Não consigo encontrar relevância maior neste momento, mesmo premido pela lógica destes dias que antecedem o Natal, esqueço a força da compaixão coletiva transformada em compulsão consumista, penso no arquetípico canalha que assola este país.

Penso nele porque é nesta época do ano que o canalha fundamental se torna mais evidente, fica impossível para ele se esconder do que é genuíno no coração das famílias, dos humildes, das minorias. Eu desconfio que o canalha já nasça com o caráter estampado na testa, chega no berçário e a galera já o reconhece como guia, será ele a deter entre os grupos as qualidades que forjarão uma imagem do bem, de parceiro, de amigo de toda a gente. Com este apoio desde o berço, esta vantagem social inata, é que será capaz de obter todos os títulos ostentáveis, porque será um mestre das picuinhas e pequenezas, dos abraços e beijinhos. Conhecedor de nossas fraquezas e ambições, o canalha fundamental quer subir na vida e então ele começa a escalada. 

É preciso ser limo para que este canalha não nos monte nas costas. Ele é incapaz do trabalho árduo que uma sociedade sã exige, promete gratidão, frequenta os amigos, graceja, exala perfume e conta piadas boas.

Canalha tem de todo jeito, o gênero é amplo, mas o que mais interessa a esta crônica é aquele que forma o brasileiro: o canalha que fura filas, que bloqueia cruzamentos, que compra carro do ano mas não paga empréstimos, aquele que puxa o tapete por recalque e que sobrevive de adulação, aquele que corrompe e aquele que é corrompido. Que age como o camelo e não consegue enxergar outra oportunidade que a poça a brilhar diante de todos os olhos. Sua personalidade movediça o carrega, explora qualquer fonte até que reste seca, não é capaz de cultivar uma planta, imagina sempre que amanhã será pior o dia.

O canalha fundamental desconstitui a esperança, pois vive de explorá-la nos ingênuos, nos cabisbaixos e nos distraídos. Vive em todo brasileiro, de uma forma que hoje dele somos indissociáveis, vez ou outra o canalha em nós toma o controle e cumprimos o que era impensável, o mal que criticamos semana passada. Eu nunca! Por conta deste canalha lotamos as academias, lotamos as praias, pois precisamos estar em forma para lidar com suas artimanhas. Alertas! Quem não quer desferir um murro nas fuças deste canalha? Mas preferimos ser seu amigo.

Nosso canalha fundamental vive do que se convencionou chamar de esperteza, ele está é no princípio de nossa burrice. Ele viceja desde os tempos da fundação deste povo, quer se dar bem desde lá, todos conhecemos este gene, ele é um com nossa sociedade. Porque admiramos o canalha secretamente. Porque ele exibe, nós sabemos, uma loucura nos olhos que desejamos, aquela capacidade de sobrevivência enquanto o outro cochila, ainda que esteja por dever no turno de vigília, que se dane! É a hora de passar o rodo, de fazer o ganho, de me dar bem.

Destaco o canalha fundamental nestes dias de Natal porque nesta época a compaixão descola dele de tonta e envenenada, nestes dias seu humor azeda e sua tolerância emocional zera diante do pernil da ceia montada para seu desgosto. Mas ele não permite ausência, por isso discursa no vácuo dos bons, e suas palavras soam frágeis, o bebum atento sabe que soam frágeis porque falsas.

Só que o Natal passa logo, passa, passa o dia 25 de dezembro e o canalha retorna para o seu posto de gozo costumeiro. Ele é o brasileiro por quem protestam e creio que nunca será por nós derrotado. O canalha fundamental está registrado na certidão de nascimento, no RG, em nosso CPF, está no registro de quando casamos. Muita gente o admira, quer ser igual. Muita gente faria, feito ele, qualquer coisa pelo sucesso deste incrível país.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Nenhum comentário:

 
;