sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Eu sei quem é você amanhã

Outro dia vieram me perguntar se eu sabia o nome de um aplicativo para celular que envelhecia as pessoas. O sujeito tira a foto com o aparelho, passa no aplicativo e em instantes está lá, na tela touchscreen de não sei quantas polegadas, o rosto da gente e mais uns trinta, quarenta anos de carga serena sobre os tecidos, sobre os olhos, sobre o crânio de homo sapiens. Eu não sabia que sabedoria, que prazer se experimentava em contemplar desta distância o próprio futuro, podia ser o mesmo tipo de prazer que carrega o povo para as mesas de búzios, de tarô, para as previsões dos astrólogos, confesso que experimentei o aplicativo, e o resultado foi este prejuízo: quem está preparado para se testemunhar cheio de rugas, vincos e papadas feito um maracujá de gaveta?

Quero aqui dizer que eu costumo fazer a brincadeira inversa. Em vez tentar adivinhar o estado de meu corpo em dívida com os anos, costumo fazer o seguinte: examino o rosto de um senhor fulano, o corpo, os braços e as pernas, e tento encontrar solenemente naquele ser carregado a sua juventude fundamental! Aquela que todos guardam orgulhosamente em alguma fotografia excelente, aquela que dizem ser a estampa da alma. Costumo examinar essa juventude alheia com indisfarçável curiosidade, como se distinguisse nela a gênese de um currículo, aprumo a vista e lá está o sujeito com trinta anos, aprumo mais um pouquinho e lá está ele com vinte. Esmero-me em retirar as rugas, os vincos, as papadas, acrescento uma ação extraordinária, pelo menos uma, em que a humanidade por obra de um simples homem ou mulher tenha sido redimida, busco também os ares vilanescos, as traições secretas, das quais ninguém soube graças a maquinações infernais dignas de um romance.

Já que o passado sobrevive em nós e eu vivo com os anos que minhas pernas sustentam, que eu possa pelo menos brincar com o passado, voltando a ser outra vez criança que não leva nada a sério. Então, compenetrado em minha brincadeira, vejo a vizinha, vejo aquele que simplesmente passa na calçada, todos se transformam em seres complexos, imersos na força de suas paixões, na sorte que lhes coube por competência ou acaso. Não é uma obsessão esta minha brincadeira, na verdade imaginação é o nome deste meu aplicativo e eu o utilizo com alguma regularidade, embora nem sempre, uso apenas para me entreter e escrever algumas linhas. 

Neste mundo bestial, que nos quer fora da cama conforme a obrigação, percebo que a imaginação começa a rarear que nem passarinho, ficamos mais e mais especialistas ano após ano, as tarefas vão sendo distribuídas cedo ao longo de uma infinita bancada de madeira, é diante dela que a gente se detém cheio de sonhos e promessas, escolhe-se a tarefa em função dos prêmios, a gente só quer saber do prêmio, o que ele quer, o que ela quer?

E as gerações se sucedem, assim elas fazem suas escolhas, mal sabem que compram uma vida já nos primeiros anos, e que terão de ser fiéis a ela, ignorando que a imaginação comanda perpetuamente o desejo, não se pode voltar atrás, dizem, surge a frustração porque falta coragem e porque somos completamente responsáveis. Pedem que imaginemos do jeito certo: imagine o final do filme se for capaz, da novela, imagine sua face no fim de sua estrada, olha, nós lhe apresentamos como será você daqui a trinta anos, não tem erro, este é o trabalho de uma equipe paga - aí sim profissionais - paga para imaginar uma vida todinha para você. Se nossa vontade for mesmo dar esse mole, é possível passar uma vida inteirinha sem tomar uma decisão sequer. Alguém tomará todas as decisões por nós.

Talvez eu esteja exagerando, caro leitor, com meu gosto particular e minha imaginação estranha. Pode ser, desejo mesmo é que a resposta esteja com você. Maldito aplicativo! Aquela imagem do meu futuro me apavorou.
              
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta é outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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