quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O fim daquela tarde

É aquele fim de tarde em que a gente se percebe ao sair do trabalho, quando corremos para alcançar o ônibus, para pegar o metrô, para avançar nem que seja a pé no caminho para casa. Porque somente em casa é que relaxamos, quando relaxamos! Tomamos um banho, trocamos com alguém um beijo de olá, ligamos a tevê.

No caminho para casa tento manter a cabeça erguida, que a tarde ao redor seja consciência através dos sentidos, que eu enxergue, apesar do caos aparente, que eu enxergue, exijo minha cabeça erguida.

O casal e a multidão querem atravessar, o casal discute e sou testemunha, poderia dar uma honesta opinião, uma opinião razoável ainda que inútil, já que daquele drama conheço tão pouco, sei que ela é bonita e ele incrivelmente feio, dá vontade de perguntar: o que faz com esse sujeito? Convocado a falar, eu tentaria ser neutro, como se não tivesse minha própria experiência onde catar julgamentos, na verdade é sempre a nossa experiência que conta.

No metrô eu perscruto a janela, as negras paredes que passam velozmente como sinal de que o vagão está em movimento. Experimento olhar para o interior do vagão, para as pessoas que não relaxam com os smartphones ligados, as orelhas ocupadas pelos fones de ouvido. Observo a senhora que puxa assunto com a dupla de músicos que entretém os passageiros. Ela dá a eles dinheiro, compreende o quanto é difícil difícil difícil aquela vida. Mas não compreende os passageiros. Na rua o show seria ok, eu paro e ouço se gostar, no metrô, como sou obrigado a ouvir, sou simplesmente cruel, dá vontade de dizer: pede logo o número de celular do sujeito, chama para sair, chama para uma cerveja, mais tarde ele te leva para a cama.

Defendo-me do show com os fones de ouvido, me entrego ao fim daquela tarde, a tarde ainda é um sonho no metrô debaixo da terra, posso imaginar que o céu parece vacilar sobre os edifícios, não sabe se vai ou se fica, fica aquela luz morena, que é metade dia e metade noite. Minha mente filtra as obrigações, mais alguma coisa hoje? Resisto às obrigações e imagino tanto a tarde que sinto medo de mais velho enlouquecer, mentir, mentir e mentir diante das incrédulas audiências.

O metrô esvazia devagar e posso ver finalmente uma bela mulher que mete o celular na bolsa e levanta para saltar, ela desfila pelo vagão, poderia ser dona de uma passarela. Será que ela gostaria de ser modelo? Se já não fosse... o que um universo como ela faz dentro de um metrô? Monto para ela um show onde desfila poderosamente, de calcinha rosa e cabelos cobrindo seios, ela usa saltos, uns saltos bem altos, como se equilibra! A platéia que imagino não grita, aplaude, aplaude, aplaude a sofisticação que ela ostenta no corpo.

Eu deixo o metrô e enfim o ar da tarde impressiona, torna-se real, o meu bairro tem árvore, é o que eu acho, sinto um frescor se o comparo com o centro da cidade. Apesar da fumaça dos carros, a luz está tão perfeita que o eterno momento preenche minha consciência, mexe as peças, eu lembro de uma tarde tão enfim quanto esta, uma tarde em que se respirava, se nadava e se compartilhava a natureza.

Minha casa ainda está longe e reponho no lugar as memórias, estas memórias hoje não serão cultivadas, porque a tarde segue em frente, reconstruir o passado cansa, a tarde é de uma beleza itinerante, os minutos vão passar e com a noite descerão os morcegos e cigarras, sumirão os passarinhos e micos, tento me aproximar da essência do presente, porra! que mentira!, ignoro o trânsito caótico, há calma em mim enquanto o pessoal segue para as academias.

É uma tarde tão boa quanto qualquer outra.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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