sábado, 1 de novembro de 2014

Endorfina, Dionísio, Apolo

É possível que em algum momento daqui para o futuro, neste mundo que criamos com nossas qualidades e defeitos, sejamos avaliados pelas substâncias que ingerimos e produzimos no corpo, informação que será certamente utilizada como evidência de nossas prováveis capacidades. Desta forma, aquela aprovação desejada na entrevista de emprego, ou depois daquela declaração de amor, ou mesmo aquele convite amigo para um bate-papo dependerão de uma leitura que levará em conta os níveis costumeiros de endorfina do sujeito, de adrenalina, de dopamina, de serotonina. Também será importante saber, é claro, a quantas andará a concentração de nicotina, de álcool e outras drogas. Nada muito diferente do que acontece hoje, mas tudo segundo um costume estabelecido por impecável consciência científica.

Fazer amizade, casar ou conseguir um emprego serão portanto questão de uma simples análise mediante medidores sofisticados, a partir dessas leituras corriqueiras seremos reconhecidos como adequados ou não, nosso corpo será nosso grande cartão de visitas, vejo aqui o senhor adrenalina, lance o sujeito no campo ou no ringue, combaterá armado, vamos explorar todo esse grande potencial.

Penso e divago modestamente, leitor, me desculpe, escrevo parágrafos loucos porque sinto falta de endorfina. Normalmente minha cota diária precisa vir de exercício físico, notadamente a corrida, é através dela que tento suprir minha necessidade da bendita. Aquela sensação gostosa de cansaço e prazer também pode ser obtida através do sexo, mas deixemos o sexo para lá, meditação também libera endorfina, nem por isso se vê por aí o pessoal praticando meditação que nem coelho. Voltemos às corridas.

Da última vez que exibi preparo físico próximo do decente, resolvi participar de uma prova de corrida, não lembro se eram 5 ou 10 quilômetros, lá na orla da praia do Flamengo, percurso de ida e volta.  Seguia-se pela pista da direita e na metade do caminho pegava-se a pista da esquerda rumo à faixa de chegada. Fui com um amigo mais preparado, que hoje se quiser corre até maratona, fomos em dupla, ritmo bem tranquilo, estávamos na pista de ida, meia pista de ida, quando então percebemos que já vinha voltando o líder pela pista da esquerda. A façanha me impressionou, fiz até o meu melhor tempo, ainda que meu parceiro tenha me largado perto da chegada, deu um sprint final que me deixou envergonhado. Mas a vergonha passou logo, a endorfina harmonizava minha prova com o dia, a meta tinha sido alcançada, senti que cumpri o meu papel. Depois da chegada sobra animação, o pessoal comenta os tempos, domingo de manhã e sol, endorfina é uma maravilha! Sabe que muitos atletas, quando abandonam a prática de exercícios, apresentam sintomas de abstinência de endorfina? Vá saber por que parei de correr então.

É que o danado Dionísio, deus das celebrações, tem tanta  influência quanto a harmonia de Apolo e me carrega para a boemia tão constantemente que eu desapego dos cuidados físicos, acabo por dar graças aos prazeres da noite. Dionísio andou reinando nos últimos anos, mas tenho sentido que Apolo pouco a pouco retoma seu espaço, ele quer mandar nos meus quarenta, enquanto escrevo cobra o tempo que eu dedicaria para a corrida. Tenho obedecido com o auxílio da tecnologia, uso até um monitor cardíaco no pulso esquerdo (o troço apita quando eu roubo o exercício), uso também relógio com cronômetro no outro pulso, tênis bom no pé, estou pensando na academia, em voltar para o spinning. Serei daí o corredor e o ciclista, para triatleta faltará apenas a natação.

Sinto a calma que me rodeia.

Calma, pede Dionísio, e percebo como as tramas desse deus boêmio são divertidas!

Só que o verão vem chegando e sei que minhas últimas  aparições na praia revelaram uma pança terrível, surge finalmente o abençoado hedonismo carioca! Em resposta, a vontade grande de ser do contra também apita, sou também do povo que sai da linha com a respeitável barriga.

Mas e a vaidade? Eis, meus leitores, o meu duelo interno. Fico até estressado, desestresso como? Alguém tem endorfina em pílulas por aí?

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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