quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Meus pés na pista









"delicada estrela
que aos pares rodeia
beija, beija, beija" 

Eu decidi deixar a aura de durão de lado e fiz matrícula em uma turma de dança de salão. Tem tempo isso, a pista tinha espelhos para todos os lados, e fabricava uma ilusão de desejada perfeição, nós, alunos homens, tentávamos ser o estimado exemplo de um cavalheiro, conferíamos nossa forma física enquanto aguardávamos a música tocar. Na primeira aula a parceira que me coube veio em minha direção, braços e corpo estendidos prontos para a minha pegada de estreante. Seu rosto brilhava debaixo das luzes brancas, a música iniciou e dei o primeiro passo, para a frente, meu primeiro passo e pisei imediatamente o pé da parceira. Seu olhar de reprovação foi uma coisa educada, jamais vi igual, não houve nem um grito, apenas um morder de lábios, que morder!, um roçar de lábios foi o que me alertou para o meu ato lamentável. O professor não me deu perdão, acredito que fosse sua melhor aluna, arriscava comigo perdê-la na pista de dança, na hora apontou-me a instrutora, era óbvio que eu precisava de atenção especial. Aproveitei o máximo que pude a atenção especial, eu abandonaria a pista de dança duas aulas depois, mas não me esqueço daquele primeiro passo largo para frente, daquela parceira pisada pelo meu pé 43.

Ainda tenho a impressão de que o passo dela foi minúsculo. O meu com certeza foi largo, foi sim, mas o dela para trás foi mínimo, poderia ser contado em centésimos de segundo. Só que eu era o iniciante, não teve jeito, reclamaria na secretaria? Eu não tinha uma foto, nem um videozinho, não havia câmeras ligadas naquele instante, não poderia apelar para os amigos no facebook, não tinha como contar com as curtidas ou com as hashtags da galera, aquela força incomparável que tira a gente da cama e nos leva direto para a tela do micro. Assumi a culpa.

Lembro disso porque hoje aquele pisão reverbera por aqui entre os meus neurônios, parece uns trovões alucinados de uma tempestade convocada por um herói da Marvel, eu me concentro na questão dos passos largos, como se os meus passos largos se ocupassem na verdade de retratar-me. São parte do meu movimento, da minha interação com este mundo ainda bestial! Essa interação tem um tanto de honesta no que expressa minha gratidão por viver, posso ver filmes, consigo ver filmes! Sinto perfumes e penso naquele passo mínimo para trás durante nosso breve contato durante uma aula de dança, quando eu banquei o arrojado, o homem intrépido, mas quem vivia conforme aquele passo minúsculo? Poderia tê-la curtido mais, olha!, a gente poderia ter tomado uma cerveja, poderíamos então ter conversado sobre o sabor de uma pizza, isso se eu não tivesse abandonado as aulas antes de um reencontro na pista, nem cheguei a me assenhorear dos ritmos e do espaço correto de uma parceira.

Meus passos largos talvez sejam consequência dos anos de jiu-jitsu e capoeira, é preciso manter os dois pés afastados para que se evite uma rasteira, para que se evite a queda, é preciso uma base segura, uma base larga. Alguém já me disse que os lutadores treinam para derrubar, não estão acostumados a manter o adversário (ou a parceira) de pé. Daí porque não dançam. Certamente fui o lutador sobre aquele pé tão delicado, eu ainda projeto de dançarino.

No filme "Indiana Jones e a última cruzada", Harrison Ford, o herói aventureiro, paralisa diante de um abismo quando deveria continuar, é o que diz a sincera dica escrita em um manual, trata-se de um passo de fé. Como continuar se o que ele vê adiante é um abismo? Alguém agoniza e precisa ser salvo, ele não pode voltar atrás, simplesmente dá um passo à frente. Um passo largo no vazio.

Aquela parceira perfumada nunca tomou um pisão como o meu. É que eu garanto: em cada passo nosso há muito da fé que temos na vida.

Mas fé demais, eu reconheço, também machuca.   

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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