quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Do amor ninguém escapa

Imagem: Toulouse Lautrec
Estava calma a choperia quando ela chegou e sentou-se na mesa próxima. Dava para notar a jovem de cabelos longos ansiosa, logo esqueci a minha cerveja e o foco passou a ser aquela mulher agitada, que se mexia na mesa sem conseguir se acomodar na cadeira, sem saber o que pedir ao garçom, para onde olhar, se para o relógio ou para o celular, escolheu o celular.

Pediu uma água. Bebeu numa talagada só. Era mulher interessante, não sei se pelo brilho dos cabelos negros, que lançava de um lado para o outro da cabeça, não sei se pela qualidade de espera que trazia consigo, qualidade que me conduzia à dúvida que a agitava, quando será que ele chega?

Será que chega? De repente, eu estava também na torcida, mas de qual lado? Tinha dúvidas se poderia fazê-la feliz, sou um sujeito bastante esforçado, mas dançar nunca foi o meu jeito de fazer as coisas, já pisei em tanto pé, saio do ritmo, gosto de fazer tudo do meu modo. Tendo isso em mente, desisti da dama, que obviamente esperava por um cavalheiro, alguém capaz de uma dança e bom-dia, assento no lado direito do carro e boa-tarde, jantar suave e boa-noite. Nada a ver com este ogro que escreve.

Agora dirá o leitor que, além de desajeitado, sou machista, porque é claro que a jovem esperava uma amiga, quem sabe a namorada... Surge cada coisa na imaginação enquanto se olha para uma mesa com uma cadeira importante vazia. Senta adiante o capeta, brinca-se de adivinhar o ser que vem, a curiosidade é como o vaivém dos garçons, interage até com o jogo na tevê. 

E o cavalheiro veio mesmo, veio com o cachorro.

Tinha um ar de quem não percebe atrasos, veio com o cachorro feliz da vida na coleira, a jovem foi apresentada à fera. Que alegria ela sentiu quando o cachorro saltou feliz sobre seu colo! Deve ter ficado aliviada. Foi o que imaginei, se o dono e o cão chegaram como perfeitos amigos, que mais poderia ela esperar de seu encontro com o cão senão o início de uma amizade verdadeira?

O cachorro a aprovou no ato, dentro do peito dela um caldo amoroso queria nascer, olhava para aquele animal e para o seu cavalheiro, creio que sentiu a pressão arrefecer, pediu um chope. Ele não pediu nada, ofereceu a ela um beijo. Ela segurava o cachorro que acabara de conhecer, o cavalheiro ofereceu um beijo, desses que asseguram uma relação, que valem não pelo que entregam mas pelo que buscam.

Ele ficou depois à vontade, deixou o cachorro amigo com ela, atravessou a rua no rumo da lanchonete, foi buscar um açaí. Seu cachorro então se tornou arisco, queria acompanhar o dono, restou a ela a inglória tarefa de contê-lo, a coleira esticava, ela dizia: quieto! A jovem olhava para a choperia como se merecêssemos desculpas, eu estava é grato por merecer aquele momento de intimidade, bebi um gole gelado de cerveja, ela virou o chope.

O cachorro pulava, fazia, acontecia. O celular tocou, ela tentava falar no celular, olhava o cardápio, segurava o cachorro, procurava pelo seu cavalheiro do outro lado da rua, ele esperava o açaí, ela pediu uma sopa. Quando o cavalheiro voltou, copo de açaí nas mãos, a jovem respirou finalmente: palmas para o cachorro mais lindo do universo, que cachorro lindo!

A cerveja estava gelada, a noite não tinha lua, mas quem quer saber da lua quando se forma diante de seus olhos uma provável família? A minha imaginação é que dizia, certamente o cavalheiro tinha um plano, o plano seguia conforme o planejado, enquanto isso aguardava que a jovem terminasse mais um chope e a sopa. Pediram a conta. Saíram juntos. Ela levou o cachorro pela coleira, foram conhecer o apartamento dele.

E a imaginação tomava conta de mim, a cerveja gelada honrava minha mesa, debaixo dela meus pés bailavam a dança do meu jeito. A televisão estava ligada. Uma frase: do amor ninguém escapa.    
   
Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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