quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Um casaquinho

Outro dia resolvi colocar um casaco. Mas não era bem um casaco, era meio que um moletom, estava frio e como não preciso de uniforme para trabalhar vesti aquele casaquinho, para combater o mau tempo e enfrentar qualquer possível adversidade, chuva, granizo, vá saber, sou bastante friorento.

O dia correu tranquilamente, não choveu e esta crônica começa com o comentário de uma amiga que encontrei por coincidência no caminho de volta para casa. Com a noite, a temperatura caíra bastante e eu estava  contente com a minha escolha da manhã, sou mesmo cria desta cidade, beirou os vinte graus já é frio, eu me aconchegava feliz por dentro do meu casaco macio. Encontrei a dona do comentário quando já descera do ônibus, minha casa ali perto, minha amiga parou para que pudéssemos conversar.

- Mas Marco, que roupinha mais simples, é isso que você usa para trabalhar?
- É.
- Você vai assim todo dia?
- Mais ou menos deste jeito. Sim, todo dia. 
- Tá bem ruinzinho.
- Tá mesmo?
- Claro, olha este casaquinho. O que é isto?

Vou poupar o leitor do resto do diálogo para que eu não fique aqui de frente passando vergonha, ganhei uma consultoria de moda inteiramente grátis naquela noite e apressei o passo para casa agradecido à minha amiga estilista e ao céu escuro, céu que me envolvia nas sombras da cidade e me escondia do povo exigente.

Em casa, fiquei matutando, aquele casaquinho era como uma calça jeans antiga, essas é que são boas, vestem que é uma beleza, tanto que o pessoal até rasga as calças por aí, para dar impressão de que são velhas.  Portanto, confesso que não consegui me livrar do casaco, minha atitude foi: guardei no armário, botei de quarentena.

No dia seguinte, passei em uma pet shop aqui do bairro e lá estava a insana, não a estilista que me deu conselho, já falei da insana por aqui, acho que tem uns dois meses, vestia na pet shop um casaquinho preto todo feminino, elegante, uma peça de roupa com a qual podia comandar a República. Que mágica! Fiquei bobo e enquanto ela ia embora pensei no meu casaquinho abandonado, a crítica implacável da minha amiga estilista o transformara em uma vestimenta de segunda classe. E ela ainda dissera: tudo é a atitude, tem quem fique miserável com um terno Armani, tem quem brilhe feito um astro com uma reles camiseta. Aliás, sobre isso... lembrei-me de Kelly Slater no clipe que não para de passar no canal OFF. Em "Feelin the Feelings", o surfista campeão arrisca a voz em uma canção, acompanhado da cantora brasileira Karina Zeviani e do músico Pretinho da Serrinha. Olho para o campeão, o cara já venceu o circuito profissional de surfe onze vezes, é um ídolo mundial, poderia vestir um colete de ouro no clipe que ninguém reclamaria. Em vez disso, aparece na tevê com uma camiseta simplória, dessas que eu usaria sem neura dentro de minha casa.

Agora o leitor aprumado dirá: ele é o Kelly Slater, você é só o Marco, o que é uma perfeita verdade! Eu sei, mesmo nas mais gentis passarelas a repercussão depende certamente da galera antenada, que presta atenção no show que o casaquinho dá, no efeito que ele tem sobre a sensibilidade daqueles para quem a moda é pura atitude. Em algum lugar do coração de minha amiga estilista o casaquinho não prestava e ela decretara: eu e ele nada a ver.

Ficou o danado pendurado dentro do armário, de quarentena, eu sem coragem de me livrar dele. Ainda bem que não está longe o verão, com seus dias quentes cheios de camisetas e bermudas, picolés e sucos de frutas. Fico mais à vontade, casaco só no próximo inverno. Mas se encontro lá minha amiga estilista de novo? Ela pensaria em desistir de mim, o que está fora de cogitação, torço então para que tenha esquecido o nosso encontro. Ano que vem acho que um outro vexame será certo.                

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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